terça-feira, 3 de janeiro de 2017

OS SETE SAMURAIS


OS SETE SAMURAIS (1954)

A lenda de que os “Os Sete Samurais” nos fala remonta ao século XVI, numa altura em que “o Japão agonizava por entre guerras civis” e os agricultores “eram aniquilados por bandidos cruéis”. Lê-se no texto introdutório do filme de Kurosawa, que, na altura da sua estreia internacional, muito consideraram o primeiro western japonês, dada as suas semelhanças com muito clássicos norte-americanos e dado ainda o facto amplamente divulgado do mestre nipónico ser um confessado admirador de John Ford ou Raoul Walsh. Curiosamente, se “Os Sete Samurais” vai buscar alguma influência aos westerns norte-americanos, a verdade é que esta obra tem, igualmente, durante muitas gerações, entusiasmado e apaixonado diversos artistas e escritores ocidentais, nomeadamente americanos do norte. Para falar única e exclusivamente do sector cinematográfico, este filme de Akira Kurosawa, datado de 1954, teve já várias adaptações posteriores (todos elas inferiores ao original, mesmo no caso de Sturges), o que dá uma ideia da atracção que o tema-base provoca. Assim, John Sturges dirigiu um western (hoje já com fama igualmente de clássico), a que chamou “Os Sete Magníficas” (The Magnificent Seven). Aqui, a pobre aldeia que contrata os sete pistoleiros situava-se no México e os bandidos que a assolam regularmente e sem piedade são igualmente pistoleiros sem escrúpulos, aproveitando-se do estado de terror e da ignorância da gente que dominam. O filme de Sturges data de 1960, e conheceu várias sequelas mais ou menos directas: “O Regresso dos 7 Magníficos” (Return of the Seven, 1966), de Burt Kennedy, “Colts Para os Sete Magníficos” (Guns of the Magnificent Seven, 1969), de Paul Wendkos, “O Ataque dos 7 Magníficos” (The Magnificent Seven Ride!, 1972), de George McCowan, e ainda uma série para televisão, “The Magnificent Seven” (1998), criada por Pen Densham e John Watson com base no filme de Sturges. Muito recentemente, surgiu mesmo um remake do filme original, “Os Sete Magníficos” (The Magnificent Seven, 2016), de Antoine Fuqua. Mas muitos outros casos se conhecem, adaptando a mesma história a diferentes cenários, do peplum histórico, por exemplo “Sete Magníficos Gladiadores” (I sette magnifici gladiatori, 1983), de Claudio Fragasso e Bruno Mattei, ou “Sete contra Todos” (Sette contro tutti, 1965), de Michelle Lupo, até uma aventura passado no Cazaquistão, pós a queda do Muro de Berlim, “Dikiy vostok” (1993), de Rashid Nugmanov. Por vezes muda o número de “samurais” mas não o centro da intriga: “The Magnificent Eleven” (2012), de Jeremy Wooding. Muitos destes exemplos revelam a decadência da lenda e o oportunismo de um tipo de produção standard.


O filme de Akira Kurosawa conta-nos, pois, a odisseia de sete samurais que uma aldeia indefesa contrata para poder fazer frente a um grupo de bandidos que os saqueia impunemente, cobrando um imposto em alimentos, destruindo e matando os seus habitantes (quase todos eles camponeses pacíficos e miseráveis). Não podem ser samurais de prestigio, têm de ser pobres samurais que se contentem com uma malga de arroz. O que pressupõe um casting demorado e por vezes divertido, o que é uma das características dominantes deste título: o humor está sempre presente, mesmo nas situações aparentemente mais delicadas ou sangrentas.
Depois de um período de adaptação particularmente laborioso (os samurais são olhados com receio pelos camponeses que, de início, não acreditam na sua boa vontade), a população da aldeia começa finalmente a depositar uma certa confiança nos mercenários que contratou, acabando ambas as partes por se identificarem na mesma luta, na qual empregam igual ardor e violência. Tempos depois, quando os bandoleiros atacam de novo a aldeia, têm de se haver com um' grupo organizado de resistentes, que os dizima a quase todos e obriga os restantes a fugir.
Alguns críticos e ensaístas que conhecem bem a obra de Kurosawa, de que em Portugal se viram “As Portas do Inferno” (Roshomon, 1950), “O Idiota”(1951), “Trono de Sangue” (1957), “Yojimbo, o Invencível” (1961), “Sanjuro” (1962), “Barba-Ruiva” (1964), “Dersu Uzala” (1975), “Kagemusha - A Sombra do Guerreiro” (1980), “Ran - Os Senhores da Guerra” (1985), “Sonhos de Akira Kurosawa” (1990), “Rapsódia em Agosto” (1991) e “Ainda Não!” (1993), afirmam que Akira Kurosawa é o mais ocidental dos realizadores nipónicos. Ele próprio manifesta a sua admiração e apreço pela obra de alguns cineastas americanos de raiz clássica, como já vimos. “Os Sete Samurais” bastariam, contudo, para cimentar esta ideia. Adaptando uma lenda do século XVI, Kurosawa actualiza-lhe a mensagem generosa e transforma em epopeia o esforço heroico dos sete samurais (mas também do povo que os adopta) na luta contra a injustiça e a prepotência dos bandoleiros que os exploram. Refira-se sempre o facto de Kurosawa sublinhar o papel colectivo do empreendimento que só assim conseguirá ter êxito, mesmo que contando com o apoio essencial dos profissionais da guerra.


Interessante será aqui saber-se o que torna um samurai diferente de um outro qualquer japonês. Folheando enciclopédias, percebe-se que o samurai, que lentamente se foi transformando numa casta social, teve inicio no Japão do século VIII. Mas foi com a fundação do primeiro xogunato, no final do século XII, que principiou o período de sete séculos de dominação política e social samurai sobre o povo japonês, que terminou com a Restauração Meiji e a queda do terceiro xogunato, na segunda metade do século XIX. O que distinguia o samurai eram os seus feitos heroicos, o seu adestramento nas artes marciais, chamadas ao tempo Kobudo, mas sobretudo o seu comportamento moral. A desonra levava-o ao suicídio, o seppuku, na terminologia local, pois para um samurai melhor era a morte a sobreviver sem honra.
O prestigio dos samurais foi decrescendo com o andar do tempo (na época de “OS Sete Samurais” percebe-se que já existiam muitos tipos de samurais, e que muitos se tinham burocratizados), mas o código moral samurai, chamado bushido, sobreviveu, e mesmo na actualidade existem sinais de que o mesmo persiste. Quem não recorda o caso do escritor e dramaturgo Yukio Mishima que, a 25 de Novembro de 1970, depois de uma tentativa de rebelião falhada, se suicidou de forma espectacular, realizando um seppuku, num compromisso declarado com o Bushido (o código de honra e conduta do samurai). Diga-se ainda, que o código e o modo de vida do samurai influenciaram igualmente o Ocidente. Basta citar um filme de Jean Pierre Melville, “Le Samurais”, ou “O Último Samurai”, de Edward Zwick.

Esta sugestão de código moral, este serviço em prol da justiça, será a linha geral que sustenta a obra. Mas a arte de Kurosawa vai muito mais longe. Deve salientar-se toda a gama de anotações pessoais que dão vida e justificam o comportamento psicológico de cada um dos sete profissionais do sabre. Neste aspecto, Kurosawa revela-se notável pela agudeza com que exprime uma figura ou pela simplicidade com que rapidamente a desenha e define. A figura de Toshirô Mifune ficará para sempre na memória do espectador, mas todos os outros se mostram dignos companheiros de armas e de arte, heróis de uma desarmante humanidade.
“Os Sete Samurais”, película que hoje todas as histórias do cinema não se eximem de comentar largamente, sendo considerada um dos clássicos do cinema japonês, documenta também o virtuosismo de uma realização notável, onde a espectacularídade nada rouba à interioridade requerida noutros passos, onde a montagem nervosa e incisiva imprime um ritmo de narrativa ágil e desenvolta, onde se manifesta ainda toda a exuberância (e exotismo, para nós, ocidentais) de uma representação excelente a todos os títulos. As cenas de batalha são magnificamente orquestradas, coreografadas mesmo, mas todas as imagens mais intimistas revelam um toque poético e lírico invulgar.
A rodagem das cenas de acção, nomeadamente o ataque final dos bandidos à aldeia, foi efectuada com recurso a diversas câmaras a filmar em simultâneo, técnica na altura não muito vulgar e que permitiu uma montagem particularmente empolgante. Mas a qualidade plástica e o rigor de enquadramento, de iluminação, de movimentação das personagens e da câmara em função delas são outros aspetos a ter em conta e que muito valorizam a obra. Toda a fase de rodagem foi muito dispendiosa, em virtude das exigências de qualidade do realizador que prolongou as filmagens para além do inicialmente previsto, o que teve reflexos óbvios no orçamento final. A Toho, companhia produtora, uma das mais importantes do Japão, chegou a por em causa terminar o filme que ia causando a ruina desses estúdios. Mas tudo acabaria por terminar em bem com o sucesso internacional da obra.
Filme arrebatador, “Os Sete Samurais” constituiu, juntamente com “Às Portas do Inferno” (Rashômon, 1950), do mesmo Kurosawa, “Contos da Lua Vaga”, de Kenji Mizoguchi (1953), e poucos mais, o grupo da frente do cinema japonês a penetrar nos festivais ocidentais no inicio da década de 50, revelando uma cinematografia absolutamente deslumbrante, e até aí quase ignorada das plateias europeias e americanas.


OS SETE SAMURAIS
Título original: Shichinin no samurai
Realização: Akira Kurosawa (Japão, 1954); Argumento: Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni; Produção: Sôjirô Motoki; Música: Fumio Hayasaka; Fotografia (p/b): Asakazu; Montagem: Akira Kurosawa; Design de produção: Takashi Matsuyama; Direcção artística: Sô Matsuyama; Guarda-roupa: Kôhei Ezaki, Mieko Yamaguchi; Maquilhagem: Midori Nakajô, Junjirô Yamada; Direcção de Produção: Hiroshi Nezu; Assistentes de realização: Sakae Hirosawa, Hiromichi Horikawa, Toshi Kaneko, Masaya Shimizu, Yasuyoshi Tajitsu; Departamento de arte: Kôhei Ezaki, Kôichi Hamamura, Yoshirô Muraki; Som: Ichirô Minawa, Fumio Yanoguchi; Companhia de produção: Toho Company; Intérpretes: Toshirô Mifune (Kikuchiyo), Takashi Shimura (Kambei Shimada), Keiko Tsushima (Shino), Yukiko Shimazaki (mulher), Kamatari Fujiwara (Manzo), Daisuke Katô (Shichiroji), Isao Kimura (Katsushiro), Minoru Chiaki (Heihachi), Seiji Miyaguchi (Kyuzo), Yoshio Kosugi, Bokuzen Hidari, Yoshio Inaba, Yoshio Tsuchiya, Kokuten Kôdô, Eijirô Tôno, Kichijirô Ueda, Jun Tatara, Atsushi Watanabe, Toranosuke Ogawa, Isao Yamagata, Sôjin Kamiyama, Gen Shimizu, Keiji Sakakida. Shinpei Takagi. Shin Ôtomo. Toshio Takahara. Hiroshi Sugi. Hiroshi Hayashi. Sachio Sakai. Sôkichi Maki. Ichirô Chiba. Noriko Sengoku, etc. Duração: 207 minutos; 160 minutos na versão internacional; Distribuição em Portugal (DVD): New Age; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 29 de Março de 1968.

TOSHIRO MIFUNE (1920- 1997)

Toshirō Mifune é o mais importante actor do cinema japonês e possivelmente o mais significativo actor de todo o Oriente. Nascido a          1 de Abril de 1920, em Qingdao, na província de Shandong, na China, filho de missionários japoneses. Foi fotógrafo em Xngai, e durante a II Guerra Mundial serviu no exército japonês, tendo-se radicado no Japão a partir de 1946. Do ano seguinte são as suas primeiras participações como actor em filmes como “Shin Baka Jidai”, de Kajiro Yamamoto, ou “Ginrei no hate”, de Senkichi Taniguchi, com argumento de Akira Kurosawa, de quem se torna o seu actor preferido. Logo em 1948 surge com enorme sucesso de público e de crítica em “Yoidore tenshi”, de Kurosawa, num papel de gangster. Mas seria em “Rashomon” (1951), numa obra do mesmo realizador que, no papel de assassino, se transformaria numa vedeta planetária. O filme ganhou o Oscar de Melhor Filme em Lingua Estrangeira. Depois seria protagonista de quase centena e meia de obras, dezasseis das quais dirigidas por Kurosawa, como “Os Sete Samurais”, “Yojimbo” (1960), com o qual conquistou o prêmio de melhor actor no Festival de Veneza, galardão que voltaria a alcançar em 1965, com “O Barba Ruiva”, do mesmo cineasta. Foi muito solicitado igualmente para papeis em filmes ocidentais, tais como “Tora! Tora! Tora!” (1969), de Richard Fleischer (e ainda Kinji Fukasaku e Toshio Masuda), Grand Prix (1966), de John Frankenheimer, ou “Hell in The Pacific” (1968), de John Boorman. Surgiu igualmente na série televisiva “Shogun” (1980), de Jerry London. Em 1964, estreou como diretor com “Gojuman no Isan”, sem grande sucesso. Morreu a 24 de Dezembro de 1997, em Tóquio, aos 77 anos. Era casado com Sachiko Yoshimine (1950–1995). 

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