terça-feira, 18 de abril de 2017


O ÚLTIMO HURRAH (1958)

“The Last Hurrah” é um filme que vive entre inícios e fins que se completam, que marcam arranques e finais definitivos. O velho mayor de uma qualquer cidade de New England, Frank Skeffington, desce as escadas da sua casa, passando pelo quadro da sua falecida mulher e renovando a flor que diariamente ali se encontra. Nas sequências finais, Frank Skeffington volta a casa, subindo dificilmente as escadas, no cimo das quais se encontra o mesmo quadro. Um pouco mais adiante, procurando furtar-me a denunciar elementos essenciais da intriga, um sobrinho repete os gestos do tio. A mulher de Skeffington é um elemento de um passado que já não existe e que o mayor reverencia.
Por outro lado, no início do filme assistimos a uma parada de campanha política de Frank Skeffington, que se recandidata ao cargo de Mayor, Presidente da Câmara, da cidade. No final, o mesmo homem, agora sozinho por vontade própria, percorre as mesmas ruas, enquanto lá ao fundo passa a caravana política de um candidato rival que acaba de o vencer nas eleições. Frank Skeffington é um homem entre dois mundos, dois mundos com defeitos e vícios, mas defeitos e vícios que John Ford acha diferentes. Frank Skeffington é um candidato bonacheirão que manipula com bonomia a simpatia dos votantes, enquanto o novo pretendente ao cargo, Kevin McCluskey, é um idiota chapado, manipulado por outros, servindo-se de novos meios de comunicação social – neste caso a televisão.


Neste aspecto, este “último hurrah” assemelha-se em muito a um “último hurrah” do próprio John Ford, sentindo os tempos a mudar, os valores a bascularem, o cinema a ser substituído pela televisão, os velhos políticos, carregados de defeitos e vícios, é certo, mas mostrando alguma humanidade, sendo derrotados por marionetas de poderes que se mantêm na sombra (aqui bem evidentes, porém, alguns banqueiros, alguma comunicação social, alguma igreja…). Há mesmo um bispo católico que, a determinada altura, confessa não votar nem num nem noutro, mas “preferir um safado a um idiota”. Este é um filme a preto e branco sobre tempos de desilusão, de fim de ciclo. Um filme que só não é de total desilusão porque na derradeira cena Frank Skeffington é confrontado por um sacerdote que lhe pergunta: “Se pudesse teria feito tudo de forma diferente?”, ao que o velho Mayor responde: “Like hell I would!”, este sim o seu verdadeiro “Last Hurrah”, mantendo todas as suas convicções.
O filme parte de um argumento de Frank S. Nugent e Edwin O'Connor, segundo romance de 1956 deste último, precisamente “The Last Hurrah”, que por sua vez ficcionava episódios da vida de um Mayor de Boston, James Michael Curley, que segundo alguns teria “elevado a corrupção municipal a uma forma de arte”. Curley não gostou que o filme fosse realizado e tentou impedi-lo, não por se julgar mal retratado, mas porque pensou que, ao concretizarem este projecto, um outro, biográfico e laudatório da sua obra, acabaria por ser inexequível.  Morreu em 1958, no ano da estreia do filme de John Ford. Afirma-se que terá recebido 25.000 dólares para não colocar o filme na justiça e a cidade de Boston nunca foi nomeada na obra. Há mesmo um momento em que Spercer Tracy profere um discurso evocando os anos em que foi Mayor desta cidade, desta grande cidade”, sem que proferisse uma única vez o nome da cidade.


A realização crepuscular de John Ford é magistral e obviamente perpassa por ela um tom confessional evidente. Este é também um filme de fim de vida de John Ford, apesar de ainda ter rodado mais oito títulos). Spencer Tracy é obviamente uma personagem profundamente fordeana, rodeada de actores que o foram sempre. Enquanto o presidente da câmara anda escoltado pelos seus fieis, John Ford procede de igual modo ao escolher os seus actores. Há momentos do melhor Ford, como as deambulações nocturnas de Frank Skeffington pelo bairro onde nasceu, pela cidade em fim de festa ou onde uma festa que não é a sua se inicia. Toda a sequência da contagem de votos na sua sede de campanha é notável. A organização do funeral de um cidadão de quem ninguém gostava promovido a herói municipal para propaganda política de Skeffington é notável, como absolutamente brilhante é a sequência da subida da escada de sua casa, nas derradeiras imagens do filme.
Todos os intérpretes são magníficos, mas Spencer Tracy, na figura de Frank Skeffington, ficará como uma das mais extraordinárias, apesar de não lhe ter dado a ganhar nenhum Oscar. Alcançaria nesse mesmo ano um Oscar pelo seu desempenho em “O Velho e o Mar”, mas Spencer Tracy sempre afirmou que gostava muito mais de “O Último Hurrah”. Nós também.

O ÚLTIMO HURRAH
Título original: The Last Hurrah
Realização: John Ford (EUA, 1958)
Argumento: Frank S. Nugent e Edwin O'Connor, segundo romance deste último; Produção: John Ford; Música: Mischa Bakaleinikoff, George Duning, Cyril J. Mockridge, Arthur Morton, Paul Sawtell; Fotografia (p/b): Charles Lawton Jr.; Montagem: Jack Murray; Design de produção: Robert Peterson; Direcção artística: Robert Peterson; Decoração: William Kiernan; Guarda-roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Helen Hunt; Assistentes de realização: Sam Nelson, Wingate Smith; Departamento de arte: Charles Granucci; Som: John P. Livadary, Harry D. Mills; Companhia de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: Spencer Tracy (Mayor Frank Skeffington), Jeffrey Hunter (Adam Caulfield), Dianne  (Maeve Caulfield), Pat O'Brien (John Gorman), Basil Rathbone (Norman Cass, Sr.), Donald Crisp (Cardeal Martin Burke), James Gleason ('Cuke' Gillen), Edward Brophy ('Ditto' Boland), John Carradine (Amos Force), Willis Bouchey (Roger Sugrue), Basil Ruysdael (Bispo Gardner), Ricardo Cortez (Sam Weinberg), Wa
llace Ford (Charles J. Hennessey), Frank McHugh (Festus Garvey), Carleton Young (Winslow), Frank Albertson, Bob Sweeney, William Leslie, Anna Lee, Ken Curtis, Jane Darwell, O.Z. Whitehead, Arthur Walsh, etc. Duração: 121 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Pictures; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Julho de 1959.

SPENCER TRACY (1900-1967)

Spencer Bonaventure Tracy nasceu a 5 de Abril de 1900, em Milwaukee, Wisconsin, EUA, e viria a falecer a 10 de Junho de 1967, com 67 anos, em Beverly Hills, Los Angeles, EUA. Filho de pais católicos, Spencer estudou num colégio jesuíta, onde se tornou amigo do futuro actor Pat O'Brien. Em 1917, os dois abandonaram os estudos e alistaram-se na Marinha, para participarem da I Guerra Mundial. Acabaram por ficar no estado da Virgínia. Spercer Tracy foi depois transferido para Wisconsin, onde terminou seus estudos. Começou a actuar no colégio e acabou por seguir a carreira de actor, fez um teste para a “American Academy of Dramatic Arts”, em Nova Iorque, e foi aceite. Em 1922, estreou-se na Broadway, no ano seguinte casou-se com Louise Treadwell, com quem se manteve casado até final da vida, apesar de ter mantido durante muitos anos uma tumultuosa ligação amorosa coma actriz Katherine Hepburn, que conheceu em 1941, durante a rodagem de “Woman of the Year” e que se prolongou até à sua morte, ocorrida precisamente em casa desta actriz. Também chegou a ser notícia o seu envolvimento com Gene Tierney, em 1952.
Em 1930, John Ford vê-o no teatro e convida-o para interpretar “Up the River”, o que o leva a mudar-se com a família para Hollywood. Nos anos seguintes, aparece em 25 filmes, e em 1935 assina um contrato com a MGM, onde permanece durante duas décadas. Em 1937 e 1938, ganha dois Oscars consecutivos como Melhor Actor, em “Captain Courageous” e “Boys Town”. Recebeu ainda mais sete nomeações: 1937, “San Francisco”; 1951, Father of the Bride; 1956, “Bad Day at Black Rock”; 1959, “The Old Man and the Sea”; 1961, “Inherit the Wind”; 1962, “Judgment at Nuremberg” e 1968, “Guess Who's Coming to Dinner”, esta a título póstumo.
Doente com diabetes desde finais da década de 40, o seu caso viu-se agravado pelo alcoolismo. Em 1963, sofreu um ataque cardíaco, que acabou por afastá-lo do cinema. Regressou em 1967 para interpretar “Guess Who's Coming to Dinner”. Dezassete dias depois de terminadas as filmagens, foi encontrado morto por Katharine Hepburn na cozinha de sua casa, vítima de ataque cardíaco. Encontra-se sepultado no “Forest Lawn Memorial Park” (Glendale), Glendale, em Los Angeles.

Filmografia (principais filmes): 1930: Up the River, de John Ford; 1932: She Wanted a Millionaire (À Procura de um Milionário), de John G. Blystone; Sky Devils (Diabos do Céu), de A. Edward Sutherland; Disorderly Conduct, de John W. Considine Jr.; 1932: Me and My Gal, de Raoul Walsh; 20 000 Years in Sing Sing (20 000 Anos em Sing-Sing), de Michael Curtiz; 1933: The Power and the Glory (O Poder e a Glória), de William K. Howard; Man's Castle (A Vida é um Sonho), de Frank Borzage; 1934: Looking for Trouble (Uma Avaria no Telefone), de William A. Wellman; Marie Galante, de Henry King; 1935: Dantes inferno (O Inferno de Dante), de Harry Lachmann; Whipsaw (A Mulher das Pérolas), de Sam Wood; 1936: Riffraff (Glória de Mandar), de J. Walter Ruben; Fury (Fúria), de Fritz Lang; San Francisco (San Francisco), de W.S. Van Dyke; 1937: They Gave Him a Gun (Deram-lhe uma Espingarda), de W.S. Van Dyke; Captains Courageous (Lobos do Mar), de Victor Fleming; Big City (Na Grande Cidade), de Frank Borzage; Mannequin (Manequim), de Frank Borzage; 1938: Test Pilot (Herói de Hoje), de Victor Fleming; 1939: Stanley and Livingstone (O Explorador Perdido), de Henry King; 1940: I Take This Woman (Esta Mulher é Minha), de W.S. Van Dyke; Northwest Passage (A Passagem do Noroeste), de King Vidor; Edison, the Man (A Vida de Tom Edison), de Clarence Brown; Boom Town (Dois Contra o Mundo), de Jack Conway; 1941: Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Victor Fleming; 1942: Woman of the Year (A Primeira Dama), de George Stevens; Tortilla Flat (O Milagre de S. Francisco), de Victor Fleming; Keeper of the Flame (A Chama Eterna), de George Stevens; 1943: A Guy Named Joe (Um Certo Rapaz), de Victor Fleming; 1944: The Seventh Cross (A Sétima Cruz), de Fred Zinnemann; Thirty Seconds Over Tokyo (Trinta Segundos Sobre Tóquio), de Mervyn LeRoy; 1947: The Sea of Grass (Terra de Ambições), de Elia Kazan; Cass Timberlane (As Duas Idades do Amor), de George Sidney; 1948: State of the Union (Um Filho do Povo), de Frank Capra; 1949: Edward, My Son (Meu Filho Eduardo), de George Cukor; Adam's Rib (A Costela de Adão), de George Cukor; 1950: Father of the Bride (O Pai da Noiva), de Vincente Minnelli; 1951: Father's Little Dividend (O Pai é Avô), de Vincente Minnelli; The People Against O'Hara (A Um Passo do Fim), de John Sturges; 1952: Pat and Mike (A Mulher Absoluta), de George Cukor; Plymouth Adventure (O Veleiro da Aventura), de Clarence Brown; 1953: The Actress (A Actriz), de George Cukor; 1954: Broken Lance (A Lança Quebrada), de Edward Dmytryk; 1955: Bad Day at Black Rock (A Conspiração do Silêncio), de John Sturges; 1956: The Mountain (A Montanha), de Edward Dmytryk; 1957: Desk Set (A Mulher Que Sabe Tudo), de Walter Lang; 1958: The Old Man and the Sea (O Velho e o Mar), de John Sturges; The Last Hurrah (O Último Hurra), de John Ford; 1960: Inherit the Wind (O Vento será a Tua Herança), de Stanley Kramer; 1961: The Devil at Four O'Clock (O Diabo as Quatro Horas), de Mervyn LeRoy; Judgment at Nuremberg (O Julgamento de Nuremberga), de Stanley Kramer; 1962: How the West Was Won (A Conquista do Oeste), (narrador) de George Marshall, Henry Hathaway, John Ford; 1963: It's a Mad Mad Mad Mad World (O Mundo Maluco), de Stanley Kramer; 1967: Guess Who's Coming to Dinner (Adivinha Quem Vem Jantar), de Stanley Kramer.  

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