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domingo, 14 de maio de 2017

ANATOMIA DE UM CRIME

ANATOMIA DE UM CRIME (1959)


“Anatomia de um Crime” (Anatomy of a Murder), de Otto Preminger, baseia-se num romance de Robert Traver, pseudónimo de John D. Voelker More que, sendo juiz na época em que escreveu a obra, a assinou com um nome suposto para assim não comprometer a sua carreira profissional, tanto mais que tinha sido ele o advogado de defesa do caso verídico sobre o qual se baseava a suposta ficção. Parece que o grosso volume de “Anatomy of a Murder” andou de mão em mão entre secretárias de diversos editores, até que um se aventurou a publicá-lo, ganhando com isso um “best seller” de reputação incomparável. Este não foi o único policial tendo como cenário um tribunal. John Donaldson Voelker, algumas vezes sob o pseudónimo de Robert Traver, foi um fecundo escritor, entre início da década de 50 e a de 80: "Danny and the Boys" (1951), "Small Town D.A." (contos, 1954), "Anatomy of a Murder" (1958), "Trout Madness" (contos, 1960), "Hornstein's Boy" (1962), "Anatomy of a Fisherman" (uma não ficção, 1964), "Laughing Whitefish" (1965), "The Jealous Mistress" (1967), "Trout Magic" (contos, 1974) e, finalmente, "People Versus Kirk" (1981).
Nascido a 29 de Junho de 1903, em Ishpeming, no Michigan, EUA, viria a falecer de ataque cardíaco, aos 87 anos, no dia 18 de Março de 1991, em Marquette, no Michigan, onde foi juiz no Supremo Tribunal Estatal, entre 1956 e 1960.
Como já dissemos, o texto baseava-se num caso verídico, ocorrido numa pequena cidade, Big Bay, no Michigan. Relata-se em poucas palavras: no dia 31 de Julho de 1952, o tenente Coleman Peterson, recentemente regressado da Coreia, matara a tiro Mike Chenoweth, dono de um bar, alegadamente por este ter violado a sua mulher, Charlotte. O advogado de defesa, John D. Voelker, alegou insanidade temporária do militar, o que acabaria por o libertar, dado ainda um psiquiatra testemunhar que se tinha curado e não apresentava ameaça de perigo. Parece que, depois de bem defendido por Voelker, e livre de apertos jurídicos, o tenente Coleman Peterson deixou a cidade sem sequer pagar os honorários devidos ao seu advogado.
Neste aspecto, o filme de Otto Preminger, que contratou John D. Voelker como consultor técnico, foi o mais fiel possível, não só ao romance como ao ambiente onde decorreu e às personagens que viveram o drama. Todo o filme foi rodado no Estado do Michigan, na zona de Ishpeming-Marquette, o que permitiu ao realizador uma liberdade de movimentos invulgar, sem a presença de controleiros da produtora. O hotel local serviu de base de apoio, onde havia camarins, salas para a fotografia, a montagem, a maquilhagem, etc. O tribunal e a prisão serviram de cenários naturais, o gabinete do advogado de defesa tinha sido o do próprio Voelker e muitos dos jurados do filme tinham ocupado as mesmas cadeiras no tribunal no desenrolar do julgamento verídico (excepto os que já tinham falecido, obviamente). Preminger pretendia o máximo de autenticidade e conseguia-o. Tudo isto aparece descrito na obra de Richard Griffith, director do New York Museum of Modern Art Film Library, que escreveu um ensaio intitulado precisamente “Anatomy of a Motion Picture”, onde estuda todos estes aspectos da rodagem desta obra no Michigan.

Mas os direitos de adaptação da obra vieram parar às mãos de Otto Preminger somente depois de um complexo processo. Em Outubro de 1957, Voelker estabeleceu um acordo com o dramaturgo John Van Druten, pelo qual este último se encarregaria de escrever uma versão teatral para ser levada à cena na Broadway. Van Druten reteria 60% dos lucros e Voelker 40%, e ambos poderiam vender os direitos para uma versão cinematográfica. O que fizeram a Ray Stark da Seven Arts Productions, acordando numa verba de 100.000 dólares, mais percentagem nos lucros. Van Druten morre em Dezembro desse ano, a peça nunca chega a subir a cena e os direitos de cinema, depois de muitas peripécias, acabam nas mãos de Otto Preminger, em Maio de 1958, um pouco inflacionados, 150.000 dólares. A transacção meteu tribunal e uma sentença favorável a Preminger, que se empenhara totalmente na realização desta obra que se transformaria rapidamente num dos mais invulgares êxitos dos chamados “filmes de tribunal”
Muitos foram os prémios que o filme alcançou (entre eles oito nomeações para os Oscars), mas basta referir uma lista, organizada pelo American Film Institute (AFI), em 2008, depois de consultados 1.500 depoentes da área do cinema, sobre os 10 melhores filmes de todos os tempos, na categoria de “Courtroom Drama” (dramas de tribunal) para se perceber a importância histórica desta obra. A lista é a seguinte: 1. “To Kill a Mockingbird”; 2. “12 Angry Men”, 3. “Kramer vs. Kramer”; 4. “The Verdict”; 5. “A Few Good Men”; 6. “Witness for the Prosecution”; 7. “Anatomy of a Murder”; 8. “In Cold Blood”; 9. “A Cry in the Dark” e 10. “Judgment at Nuremberg”. Pessoalmente, colocá-lo-ia nos três primeiros lugares, e Michael Asimow, professor de Direito da UCLA, afirma mesmo que este é “provavelmente o melhor filme de sempre realizado sobre tribunais” ("probably the finest pure trial movie ever made"). Na classificação da “Internet Movie Database” figura em 19º lugar, entre 807 filmes passados em tribunais.
Contam as crónicas da época que Otto Preminger pensou em vários actores antes de acertar o elenco definitivo. Lana Turner seria inicialmente “Laura Manion”, Richard Widmark esteve previsto para a figura do tenente, mas o mais surpreendente terá sido a escolha do juiz. Inicialmente, fora previsto Spencer Tracy, e depois Burl Ives, para o papel de “Juiz Weaver.” Por impossibilidade de ambos, Preminger virou-se para Joseph N. Welch, um advogado de Boston que tinha representado o governo dos EUA no Exército, no quente período da caça às bruxas levado a cabo pelo senador McCarthy. Joseph N. Welch enfrentou-o destemidamente, chegando a acusá-lo de “não ter um mínimo de decência”, marcando assim o início da queda do temível senador e do macarthismo. A escolha terá sido igualmente uma homenagem a um homem impoluto, que, aliás, conduz de forma magnífica todas as sessões do julgamento. Outra figura carismática que surge no filme, não só como autor de uma envolvente partitura musical, onde o jazz é uma constante, é Duke Ellington, que aparece na qualidade de Pie-Eye, um pianista de bar, tocando lado a lado com James Stewart.


O filme aborda um caso de violação, onde, apesar de toda a discrição com que o tema é sugerido, acabou por criar alguns engulhos junto do “Production Code Administration”, o tão conhecido Código Hays. Depois de várias negociações, durante as quais algumas palavras foram banidas dos diálogos (esperma, penetração, clímax sexual, por exemplo), o filme foi rodado, mas não viu a sua aprovação final facilitada. Coisa que era comum nas obras de Otto Preminger, que foi um dos maiores sabotadores do Código (juntamente com Billy Wilder). A “The National Catholic Legion of Decency” levantou problemas e houve mesmo um estado, Chicago, onde o filme foi inicialmente proibido de exibir pelo “Police Film Censor”, e mais tarde autorizado, depois de uma querela jurídica, com o juiz federal Julius Miner a aprová-lo, depois de não o ter considerado “obsceno.” Mas todos perceberam que “Anatomia de um Crime” continha linguagem “nunca ouvida num filme americano”.
A intriga resume-se no essencial ao seguinte: numa pequena cidade da chamada “Upper Peninsula” de Michigan, o modesto advogado Paul Biegler (James Stewart), parece quase retirado de julgamentos, entretendo-se com a pesca, o piano e a companhia de um velho colega, Parnell McCarthy (Arthur O'Connell), que gosta imoderadamente de whisky. A secretária de Paul Biegler, Maida Rutledge (Eve Arden), vai tomando conta dos recados, sobretudo divórcios e outras irrelevâncias, quando recebe um telefonema inesperado. Laura Manion (Lee Remick), casada com o tenente Frederick "Manny" Manion (Ben Gazzara), recentemente regressado da Coreia, quer ser recebida. Laura é notícia nacional, todos sabem do caso que protagonizou: ao regressar à roulotte onde vive com Frederick, depois de uma noite passada num bar, é agredida e violada por Barney Quill. O marido, sabedor do ocorrido, agarra numa arma dirige-se ao bar e desfere alguns tiros certeiros em Barney, matando-o. Preso, não nega o assassinato, apenas pretende atenuantes para o acto. Laura quer que Paul Biegler o defenda em tribunal. Com um caso mediático entre mãos, este procura a colaboração de Parnell McCarthy, que tenta libertar-se da bebida para recompor as capacidades, e ambos partem para o processo, reunindo elementos.
A única forma de tentar atenuar a sentença, ou mesmo libertar o réu, é invocar insanidade temporária. Um psiquiatra militar está disposto a testemunhar. Mas pela frente vão ter o promotor de justiça local, D.A. (Brooks West), assistido por uma sumidade vinda da grande cidade, Claude Dancer (George C. Scott). Este é um daqueles chamados “dramas de tribunal”, como já foi referido e, portanto, tudo será dirimido com argumentos de ambas as partes, perante um júri de pessoas locais, escolhidas aleatoriamente, e um juiz particularmente cordato, Weaver (Joseph N. Welch), que procura sobretudo fazer ressaltar a verdade.
Acontece que Laura Manion não é santa de colocar no altar, tudo nela sublinha a sensualidade e mesmo a provocação. E os jogos de bastidores intensificam-se. A defesa tenta tornar Laura uma dona de casa que procura divertir-se sem maldade com a pin box do bar, a acusação ataca-a pelo seu lado leviano. Esgrimem-se testemunhos contraditórios e todo o filme prende o espectador com o suspense desta troca de acusações, de inquirições de testemunhas, de revelações surpresa, de testemunhos inesperados. A estrutura do argumento é sólida e magnificamente conduzida, jogando com a investigação da defesa, esclarecendo factos ou obscurecendo outros, em proveito próprio.
Uma realização clássica, superiormente dirigida pelo austríaco Otto Perminger, faz de “Anatomia de um Crime” uma obra ímpar dentro do género, sendo que a fotografia de Sam Leavitt, num fulgurante preto e branco, é magnifica, bem como a banda sonora, onde sobressai a música de jazz de Duke Ellington. A descrição da pequena cidade é primorosa de rigor e autenticidade. Mas, num filme de tribunal, é perfeitamente compreensível que o elenco tenha de ser de altíssima qualidade para impor personagens e prender os espectadores. James Stewart é admirável na composição do discreto mas eficiente Paul Biegler, Lee Remick consegue inebriar na figura da provocadora Laura Manion, Ben Gazzara é secreto e misterioso como convém, Arthur O'Connell dá uma lição de bonomia e controlada truculência, George C. Scott é o impassível e incisivo promotor de justiça, sem piedade nos interrogatórios e nas armas que utiliza. Os restantes mantêm o nível, o resultado é brilhante.
Como se sabe, os mecanismos da justiça norte-americana são muito diferentes dos da Europa ocidental. Nesse aspecto, o filme é a lição para quem quiser perceber essas nuances e descobrir igualmente algumas das regras de ouro por que se rege uma democracia que acredita que pode abeirar-se o mais possível da verdade. É obvio que a realidade nem sempre é como nos é narrada nos romances e nos filmes, mas é sempre bom ver defender as liberdades e os direitos dos cidadãos, mesmo num caso tão tortuoso como este que nos é apresentado, onde um estado de espírito alterado pela cólera e a sede de vingança pode ser considerado uma atenuante para um crime. Será lícito moral e juridicamente? Também nesse aspecto, “Anatomia de um Crime” continua muito actual, ainda que, 50 anos depois, dificilmente o resultado fosse o mesmo.

ANATOMIA DE UM CRIME
Título original: Anatomy of a Murder
Realização: Otto Preminger (EUA, 1959); Argumento: Wendell Mayes, segundo romance de John D. Voelker; Produção: Otto Preminger; Música: Duke Ellington; Fotografia (p/b): Sam Leavitt; Montagem: Louis R. Loeffler; Design de produção: Boris Leven; Maquilhagem: Del Armstrong, Harry Ray, Myrl Stoltz; Direcção de produção: Henry Weinberger; Assistentes de realização: David Silver, Hal W. Polaire, Ray Taylor Jr.; Departamento de arte: Howard Bristol; Genérico: Saul Bass; Som: Jack Solomon; Efeitos especiais: George Harris; Companhias de produção: Carlyle Productions; Intérpretes: James Stewart (Paul Biegler), Lee Remick (Laura Manion), Ben Gazzara (Lt. Frederick Manion), Arthur O'Connell (Parnell Emmett McCarthy), Eve Arden (Maida Rutledge), Kathryn Grant (Mary Pilant), George C. Scott (Claude Dancer), Duke Ellington, Orson Bean, Russ Brown, Murray Hamilton, Brooks West, Ken Lynch, Howard McNear, Alexander Campbell, Ned Wever, Jimmy Conlin, Lloyd Le Vasseur, James Waters, Joseph N. Welch, etc. Duração: 160 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia /Tristar (DVD); Classificação etária: M/12 anos; 

BEN GAZZARA 
(1930-2012)
Ben Gazzara, com o nome de baptismo de Biagio Anthony Gazzara, nasceu em Nova Iorque, a 28 de Agosto de 1930, e viria a falecer em Nova Iorque, a 3 de Fevereiro de 2012, com 81 anos. Filho de imigrantes italianos, Ben nasceu e cresceu em Nova Iorque, tendo frequentado a conhecida Stuyvesant High School, enveredando decididamente pela carreira de actor. Chegou a estudar engenharia eléctrica na City College of New York, mas desistiu, para se matricular no Actor's Studio. Na década de 50, apareceu em vários espectáculos na Broadway, entre os quais “Gata em Telhado de Zinco Quente”, de Tennessee Williams, com encenação de Elia Kazan. Em 1957, estreia-se no cinema, em “The Strange One”. Com uma carreira intensa, no cinema, na televisão e no teatro, Ben Gazzara também dirigiu alguns episódios de séries de TV e um filme de cinema. Muitos foram os seus papeis memoráveis, como “Anatomy of a Murder” (1959), “A Rage to Live” (1965), “Capone” (1975), “Voyage of the Damned” (1976), mas sobretudo os que interpretou sob as ordens do seu amigo John Cassavetes nos anos 70, “Husbands” (1970), “The Killing of a Chinese Bookie” (1976) ou “Opening Night” (1977). Nos anos 80, refiram-se “Saint Jack” e “They All Laughed”, ambos de Peter Bogdanovich. Trabalhou imenso na televisão, começando por “Arrest and Trial” (1963—1964), na rede ABC e culminando em “Run for Your Life” (1965—1968), na NBC. Foi nomeado por três vezes para o Tony de melhor actor de teatro “A Hatful of Rain” (1956), “Hughie & Duet” (1975) e “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” (1977). Em 2003, ganhou o Emmy de Melhor Actor Secundário, no telefilme “Hysterical Blindness”. Três vezes nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Actor de televisão, na série “Run for Your Life”. Durante alguns anos viveu em Itália, tendo uma casa na Umbria. Casado com Louise Erickson (1951 – 1957), Janice Rule (1961 - 1982) e Elke Stuckmann (1982 - 2012). Faleceu em consequência de um cancro no pâncreas, em Fevereiro de 2012.

Filmografia / cinema (principais filmes): 1957: The Strange One (Joko de Paris), de Jack Garfein ; 1959: Anatomy of a Murder (Anatomia de um Crime), de Otto Preminger; 1960: Risate di gioia (O Ladrão Apaixonado), de Mario Monicelli; 1961: The Young Doctors (Jovens Médicos), de Phil Karlson; 1962: La Città Prigioniera (A Cidade Prisioneira), de Joseph Anthony; Convicts 4 (Inferno Na Terra), de Millard Kaufman; 1965: A Rage to Live, de Walter Grauman; 1969: If It's Tuesday, This Must Be Belgium (Estes Turistas Americanos), de Mel Stuart; The Bridge at Remagen (A Ponte de Remagem), de John Guillermin; 1970: King: A filmed record... Montgomery to Memphis, de Joseph L. Mankiewicz e Sidney Lumet (documentário); 1970: Husbands (Maridos), de John Cassavetes; 1972: Afyon Oppio, de Ferdinando Baldi; 1973: The Neptune Factor (Uma Odisseia Submarina), de Donald Petrie; 1975: Capone (Al Capone), de Steve Carver;1976: The Killing of a Chinese Bookie (A Morte de Um Apostador Chinês), de John Cassavetes; Voyage of the Damned (A Viagem dos Malditos), de Stuart Rosenberg; 1978: Opening Night (Noite de Estreia), de John Cassavetes; 1979: Bloodline (Laços de Sangue), de Terence Young; Saint Jack (Noites de Singapura), de Peter Bogdanovich;1981: They All Laughed (Romance em Nova Iorque), de Peter Bogdanovich; Storie di ordinaria follia (Contos da Loucura Normal), de Marco Ferreri; 1983: La Ragazza di Trieste (A Rapariga de Trieste), de Pasquale Festa Campanile; 1985: Il Camorrista (O Professor), de Giuseppe Tornatore; 1987: Il Giorno prima, de Giuliano Montaldo; 1990: Beyond the Ocean, de Ben Gazzara; 1991: Per Sempre, de Walter Hugo Khouri; 1996: John Cassavetes: To risk everything to express it all, de Rudolf Mestdagh (documentário); 1997: The Spanish Prisoner (O Prisioneiro Espanhol), de David Mamet; 1998: Buffalo '66 (Buffalo '66), de Vincent Gallo; The Big Lebowski (O Grande Lebowski), de Joel Coen; Happiness (Felicidade), de Todd Solondz; Illuminata, de John Turturro; 1999: Summer of Sam (Verão Escaldante), de Spike Lee; The Thomas Crown Affair (O Caso Thomas Crown), de John McTiernan; 2000: Blue Moonk de John A. Gallagher; 2001: Broadway: The golden age, by the legends who were there, de Rick McKay (documentário); 2002: Schubert, de Jorge Castillo; 2003: Dogville (Dogville), de Lars von Trier ; Dogville confessions, de Sami Saif (documentário) ; 2004: Quiet Flows the Don, de Serge Bondartchouk; 2005: Paris je t'aime - episódio "Quartier latin", de Gérard Depardieu e Frédéric Auburtin ; 2008: Looking for Palladin, de Andrzej Krakowski.



terça-feira, 18 de abril de 2017

A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES


A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES (1958)


1. “A Mulher que Viveu Duas Vezes”. Consta que Alfred Hitchcock gostaria muito de adaptar ao cinema “Celle qui n'Était Plus”, um romance da dupla francesa, Pierre Boileau e Thomas Narcejac, entretanto adaptado em França, em 1955, por Henri-Georges Clouzot, com o título “Les Diaboliques”. Sabendo do interesse do realizador norte-americano, Boileau e Narcejac resolveram escrever um novo romance, "D'Entre les Morts", que enviaram a Hitch. Assim nasce “Vertigo”, que conta com o trabalho de Alec Coppel e Samuel A. Taylor na escrita do guião, com a colaboração, não referenciada no genérico, do escritor e dramaturgo Maxwell Anderson.
Extremamente original quando foi rodado, na forma como desenvolve a narrativa e nos processos técnicos utilizados (muitas vezes repetidos e copiados posteriormente, o que pode dar a sensação hoje em dia de não ser tão original quanto o foi em 1957), “A Mulher que Viveu Duas Vezes” é uma obra extremamente complexa, jogando com alguns dos temas caros a Hitchock. Um deles é a obsessão da culpa, outro a presença de uma loura capitosa, que oscila entre vítima indefesa e mulher fatal, um terceiro o recurso à psicanálise e aos complexos e pulsões eróticas desencadeados pelas teorias de Freud e continuadores, muito em voga por esses anos no cinema norte-americano. 


John Ferguson (o sempre notável James Stewart) é um polícia reformado, que sente a culpa de estar ligado à morte de um companheiro de equipa que, ao longo de uma perseguição pelos telhados de São Francisco, ao tentar salvá-lo de uma queda, acaba por sucumbir ele próprio no precipício. Ferguson não sente só a culpa desse acidente, como também fica refém de uma acrofobia que o impede de se aproximar de qualquer abismo, sofrendo de terríveis vertigens que lhe tolhem os movimentos e provocam o desmaio e a queda. Vive a tentar recuperar do trauma, na companhia de Midge Wood (a admirável Barbara Bel Geddes), uma designer que se apresenta como a imagem protectora e maternal de uma amiga e serena apaixonada que lhe dá a força necessária em momentos de maior inquietação. Um dia, Ferguson recebe a proposta de um antigo amigo, Gavin Elster (Tom Helmore), para reatar a sua actividade, agora como detective particular. A ideia é perseguir Madeleine Elster (a belíssima Kim Novak), mulher de Gavin, que atravessa um período conturbado, julgando assumir a personalidade de uma antiga antepassada que se matara. Gavin afirma temer pela sorte da mulher e quere-a acompanhada ao longo do dia, antecipando alguma tragédia. Ferguson acaba por aceitar a incumbência e a beleza de Madeleine e o mistério que a cerca acabará por enfeitiçar o ex-polícia. É difícil ir mais além a desenhar os contornos da trama sem lhe retirar suspense, o que, num filme do mestre do mesmo, seria indesculpável. 


Mas pode dizer-se que Ferguson não se liberta da sua acrofobia, e que alguém se aproveita dela para tentar cometer o crime prefeito. Pode ainda falar-se de uma obsessão amorosa que fulgurantemente galopa, e não se andará muito longe da verdade se se analisar, a certa altura do enredo, o comportamento de Ferguson que se aproxima muito de um sintomático pigmaleanismo, procurando recriar a mulher dos seus sonhos. Aliás a revisitação de alguns temas mitológicos clássicos e de alguns sonhos freudianos (há mesmo um pesadelo visual de Ferguson que revela alguma influência surrealista, sob a batuta de mestre Saul Bass) ao longo de toda a obra, que conta ainda com uma curiosa construção cromática, com alguns planos em viragem para um monocromatismo muito interessante de um ponto de vista simbólico, mas sobretudo como efeitos dramáticos conseguidos mercê de mão de mestre pela astúcia formal de Hitch. De um ponto de vista plástico, a obra é de uma elegância e de um beleza sufocantes, uma das mais rigorosas e perfeitas saídas deste genial manipulador de emoções. Há um efeito que começou desde então a ser conhecido como “a vertigem Hitchcock” e através do qual o cineasta consegue o efeito de vertigem conjugando um travelling manual recuando, com um zoom óptico de aproximação. Mas esta é apenas uma das originalidades desta obra-prima que, todavia, na noite da atribuição dos Oscars no ano, apenas se viu distinguida com duas nomeações para Melhor Direcção Artística e Melhor Som, que nem estes haveria de ganhar. Aliás, a recepção do público na época da estreia, foi razoavelmente boa, bem como a da crítica, sem todavia entusiasmar quem quer que seja. Nem a fabulosa partitura musical de Bernard Hermann suscitou na altura entusiasmo devido. 
O título só começou a ser devidamente valorizado a partir da década de 70, quando alguns realizadores (entre os quais Martin Scorsese e Brian De Palma), muito influenciados pela crítica europeia, lhe atribuíram um outro valor. Mas foi definitivamente depois do restauro, em 1996, que a obra saltou para os lugares de topo das listas dos Melhores de Sempre.
“A Mulher Que Viveu Duas Vezes” não é curiosamente o filme preferido de Hitch (chegou a confessar que uma das suas obras preferidas era “Shadow of a Doubt” - A Sombra de Uma Dúvida-, de 1943), mas, igualmente segundo as suas próprias palavras, terá sido “o seu filme mais pessoal”, onde a protagonista pode considerar-se a representação das mulheres da vida de Alfred Hitchcock.


2. “Vertigo” o melhor filme de sempre?... “Sight & Sound” é uma revista inglesa de crítica cinematográfica que apareceu em 1932, passando, a partir de 1934, a ser editada pelo BFI (British Film Institute).  A revista mantem-se ainda hoje como uma das publicações mais prestigiadas em todo o mundo. De edição mensal, dá igual importância a obras de grande público e de circuitos restritos, sendo dirigida por Gavin Lambert entre 1949 e 1955, depois (de 1956 a 1990), por Penelope Houston. Actualmente é da responsabilidade de Nick James. Em 1952, a “Sight & Sound” organizou um primeiro inquérito entre críticos, realizadores, historiadores, académicos e distribuidores de todo o mundo, solicitando a cada um deles a sua lista dos 10 Melhores Filmes de Sempre. Do cômputo geral saiu uma lista que tinha à frente “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio de Sica, e uma maioria de obras do cinema mudo: 1. Bicycle Thieves (25 votos), 2. City Lights (19), 2. The Gold Rush (19), 4. Battleship Potemkin (16), 5. Intolerance (12), 5. Louisiana Story (12), 7. Greed (11), 7. Le Jour se Leve (11), 7. The Passion of Joan of Arc (11), 10. Brief Encounter (10), 10. La Règle du Jeu (10) e 10. Le Million (10). Dez anos depois, a revista repetiu o inquérito, com resultados bastante diferentes. “Citizen Kane”, de Orson Welles, aparecia à frente: 1. Citizen Kane (22 votos), 2. L'Avventura (20), 3. La Règle du Jeu (19), 4. Greed (17), 4. Ugetsu Monogatari (17), 6. Battleship Potemkin (16), 7. Bicycle Thieves (16), 7. Ivan the Terrible (16), 9. La Terra Trema (14) e 10. L'Atalante (13). Em 1972, novo inquérito dava outro resultado, mantendo todavia “Citizen Kane” na dianteira: 1. Citizen Kane (32 votos), 2. La Règle du Jeu (28), 3. Battleship Potemkin (16), 4. 8½ (15), 5. L'Avventura (12), 5. Persona (12), 7. The Passion of Joan of Arc (11), 8. The General (10), 8. The Magnificent Ambersons (10), 10. Ugetsu Monogatari (9) e 10. Wild Strawberries (9).
Nova década passou e, em 1982, a votação sofreu algumas alterações, mas Welles manteve-se na dianteira: 1. Citizen Kane (45 votos), 2. La Règle du Jeu (31), 3. Seven Samurai (15), 3. Singin' in the Rain (15), 5. 8½ (14), 6. Battleship Potemkin (13), 7. L'Avventura (12), 7. The Magnificent Ambersons (12), 7. Vertigo (12), 10. The General (11) e 10. The Searchers (11). Não deixa de ser interessante verificar as alterações. Alguns títulos foram desaparecendo, outros surgindo, alguns subindo ou descendo em virtude do “gosto” da época. Em 1992, a iniciativa manteve-se e o primeiro lugar também: 1. Citizen Kane (43 votos), 2. La Règle du Jeu (32), 3. Tokyo Story (22), 4. Vertigo (18), 5. The Searchers (17), 6. L'Atalante (15), 6. The Passion of Joan of Arc (15), 6. Pather Panchali (15), 6. Battleship Potemkin (15) e 10. 2001: A Space Odyssey (14).
No primeiro inquérito do século XXI (2002), “Vertigo” começa a ameaçar “Citizen Kane” que, todavia, mantém a hegemonia durante 50 anos: 1. Citizen Kane (46 votos), 2. Vertigo (41), 3. La Règle du Jeu (30),4. The Godfather e The Godfather Part II (23), 5. Tokyo Story (22), 6. 2001: A Space Odyssey (21), 7. Battleship Potemkin (19), 7. Sunrise: A Song of Two Humans (19), 9. 8½ (18) e 10. Singin' in the Rain (17).
Em 2012, finalmente, a reviravolta: “Vertigo” em primeiro lugar, “O Mundo a Seus Pés” em segundo. Entretanto o universo de votantes também se alterou consideravelmente em número: 846 críticos, programadores, académicos e distribuidores, notando a ausência de realizadores que agora tinham uma votação à parte. Os resultados: Vertigo (191 votos), 2. Citizen Kane (157), 3. Tokyo Story (107), 4. La Règle du Jeu (100), 5. Sunrise: A Song of Two Humans (93), 6. 2001: A Space Odyssey (90), 7. The Searchers (78), 8. Man with a Movie Camera (68), 9. The Passion of Joan of Arc (65) e 10. 8½ (64).
A “Sight & Sound” desde 92 que mantem um votação isolada para realizadores, com resultados bastante diferentes nalguns aspectos. Em 1992: 1. Citizen Kane, 2. 8½, 3. Raging Bull, 4. La Strada, 5. L'Atalante, 6. The Godfather, 6. Modern Times, 6. Vertigo, 9. The Godfather Part II, 10. The Passion of Joan of Arc, 10. Rashomon e 10. Seven Samurai; Em 2002: 1. Citizen Kane; 2. The Godfather e The Godfather Part II, 3. 8½, 4. Lawrence of Arabia, 5. Dr. Strangelove, 6. Bicycle Thieves, 6. Raging Bull, 6. Vertigo, 9. Rashomon, 9. La Règle du Jeu, 9. Seven Samurai; Finalmente em 2012 os resultados também diferiram da lista mais vasta: 1. Tokyo Story (48 votos), 2. 2001: A Space Odyssey (42), 3. Citizen Kane (42), 4. 8½ (40), 5. Taxi Driver (34), 6. Apocalypse Now (33), 7. The Godfather (31), 07. Vertigo (31), 9. The Mirror (30) e 10. Bicycle Thieves (29).
Até agora esteve a falar-se sobretudo de filmes de ficção (com uma ou outra excepção documental). Em 2014, a “Sight & Sound” realizou um inquérito sobre os Melhores Documentários de Sempre. Por curiosidade, aqui ficam os resultados: 1. Man with a Movie Camera (100 votos), 2. Shoah (68), 3. Sans Soleil (62), 4. Night and Fog (56), 5. The Thin Blue Line (49), 6. Chronicle of a Summer (32), 7. Nanook of the North (31), 8. The Gleaners and I (27), 9. Dont Look Back (25) e 9. Grey Gardens (25).
Voltando a “Vertigo” e ao seu primeiro lugar em 2012, há que referir que a sua foi uma subida gradual, durante os últimos decénios, desde o sétimo lugar em 1998, passando por um quarto (2000), por um segundo (2002) para alcançar o topo da pirâmide em 2012. Esta progressiva subida quer dizer alguma coisa de consistente: o filme foi cada vez mais apreciado, sem dúvida. Mas, por outro lado, estes inquéritos comportam uma percentagem de incerteza muito grande quanto aos resultados. Primeiro que tudo há que avaliar o universo de convidados a votar. Se forem todos escolhidos em função de uma certa tendência estética ou geográfica, os resultados não podem ser consistentes. E sabe-se muito bem como se podem influenciar as conclusões, escolhendo sabiamente as premissas. Depois, as listas não são analisadas em função das preferências no interior de cada votante. Muito pelo contrário: cada filme é um voto e é da soma dos votos que sai o resultado final. Mas, quaisquer que sejam as dúvidas, são interessantes e esclarecedores os desfechos. Se será ou não o Melhor Filme de Sempre (ao cair do ano de 2012), não importa muito. É seguramente um dos Melhores Filmes de Sempre, o que já importa bastante. Para mim, já agora como nota pessoal, nunca o colocaria sequer entre os meus Dez Melhores. O que não invalida que o considere uma obra-prima inquestionável.


A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES
Título original: Vertigo.
Realização: Alfred Hitchcock (EUA, 1958); Argumento: Alec Coppel, Samuel A. Taylor, segundo romance de Pierre Boileau  e Thomas Narcejac ("D'Entre Les Morts"), como colaboração não creditado de Maxwell Anderson; Produção: Herbert Coleman, Alfred Hitchcock; Música: Bernard Herrmann; Fotografia (cor):  Robert Burks; Montagem: George Tomasini; Casting: Bert McKay; Direcção artística: Henry Bumstead, Hal Pereira; Decoração:  Sam Comer, Frank R. McKelvy; Guarda-roupa:  Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Westmore;  Direcção de Produção:  Frank Caffey, Andrew J. Durkus, C.O. Erickson, Don Robb;  Assistentes de realização: Daniel McCauley; Departamento de arte: Saul Bass (poster e genérico), Gene Lauritzen, Manlio Sarra (retrato de Carlota); Som: Winston H. Leverett, Harold Lewis;  Efeitos visuais: Farciot Edouart, John P. Fulton, W. Wallace Kelley, Paul K. Lerpae, John Whitney Sr.; Companhias de produção: Paramount Pictures, Alfred J. Hitchcock Productions; Intérpretes: James Stewart (John 'Scottie' Ferguson), Kim Novak (Madeleine Elster / Judy Barton), Barbara Bel Geddes (Midge Wood), Tom Helmore (Gavin Elster), Henry Jones (Coroner), Raymond Bailey  (médico de Scottie), Ellen Corby (gerente do McKittrick Hotel), Konstantin Shayne (Pop Leibel), Lee Patrick, David Ahdar, Isabel Analla, Jack Ano, Margaret Bacon, John Benson, Danny Borzage, Margaret Brayton, Paul Bryar, Steve Conte, Jean Corbett, Bruno Della Santina, Roxann Delman, Molly Dodd, Bess Flowers, Joe Garcio, Joanne Genthon, Don Giovanni, Roland Gotti, Victor Gotti, Fred Graham, Robert Haines, Buck Harrington, Alfred Hitchcock (homem a passear na rua, aos 11 minutos do filme), Jimmie Horan, Art Howard, Catherine Howard, June Jocelyn,  David McElhatton, Miliza Milo, Lyle Moraine, Forbes Murray, Julian Petruzzi, Ezelle Poule,  Kathy Reed, William Remick, Jack Richardson, Jeffrey Sayre, Nina Shipman, Dori Simmons, Ed Stevlingson, Sara Taft, etc. Duração: 129 minutos; Distribuição em Portugal: Midas Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Janeiro de 1959.

JAMES STEWART (1908-1997)
James Maitland Stewart nasceu a 20 de Maio de 1908, em Indiana, Pensilvânia, EUA, e faleceu a 2 de Julho de 1997, com 89 anos, em Los Angeles, Califórnia, EUA. Foi casado com a ex-modelo Gloria Hatrick McLean (1949-1994). Foi um actor de teatro, cinema e televisão, tendo protagonizado vários clássicos, sendo considerado um actor incomparável pelo público mundial. Foi nomeado cinco vezes para o Oscar, que ganhou em 1941, pelo seu trabalho em “The Philadelphia Story”. Na televisão conquistou o Globo Ouro de Melhor Actor, nasérie dramática, de 1974, “Hawkins”. Inicialmente, tentou arquitectura, mas acabaria no teatro, nos palcos da Broadway. Foi nos filmes de Frank Capra que começou a chamar a atenção para o seu trabalho no cinema, sobretudo a partir de “Mr. Smith Goes to Washington” (1939). Neste filme, James começou a construir o papel pelo qual mais tarde seria reconhecido, o de idealista convicto. Foi um actor que muitos realizadores gostavam de ter no elenco dos seus filmes. Por isso Hitchcock, Capra, Ford, Anthony Mann e alguns mais não o dispensavam na sua filmografia.  James Stewart morreu na sua casa, em Beverly Hills, de embolia pulmonar. Encontra-se sepultado no Forest Lawn Memorial Park, Glendale, em Los Angeles.


Filmografia / Cinema (principais filmes): 1934: Art Trouble (curta-metragem); 1935: The Murder Man, de T. Whelan; 1935: Rose Marie (Rose Marie), de W.S. Van Dyke ; 1938: The Shopworn Angel (Um Anjo no Inferno), de H. C. Potter; You Can't Take It with You (Não o Levarás Contigo), de Frank Capra; 1939: Mr. Smith Goes to Washington (Peço a Palavra), de Frank Capra; Made For Each Other (A Vida Começa Amanhã), de John Cromwell; Ice Folies of 1939 (O Turbilhão de Gelo), de R. Scheinzel; Destry Rides Again (A Cidade Turbulenta), de George Marshall; 1939: It's a Wonderful World (Afinal, o Mundo é Belo!), de Frank Capra; 1940: No Time for Comedy (A Vida é Uma Comédia), de William Keighley; The Philadelphia Story (Casamento Escandaloso), de George Cukor; The Shop Around the Corner (A Loja da Esquina), de Ernest Lubitsch; The Mortal Storm (Tempestade Mortal ou Tempos de Maldição), de Frank Borzage; 1941: Ziegfeld Girl (Sonho de Estrelas), de R. Z. Leonard; 1942: Come Live with Me (Compra-se Um Marido), de Clarence Brown; 1946: It's a Wonderful Life (Do Céu Caiu uma Estrela), de Frank Capra; Magic Town (A Cidade Mágica), de William A. Wellman; 1948: Rope (A Corda), de Alfred Hitchcock; On Our Merry Way (Tudo Pode Acontecer), de L. Fenton, K. Vidor, G. Stevens e J. Huston; Call Northside 777 (A Verdade Triunfou), de Henry Hathaway; 1949: The Stratton Story (Tenacidade), de Sam Wood; Malaya (Malaia), de Richard Thorpe; 1950: Winchester '73 (Winchester '73), de Anthony Mann; Broken Arrow (A Flecha Quebrada), de Delmer Daves; Harvey (Havey), de Henry Koster; 1951: No Highway in the Sky (Viagem fantástica), de Henry Koster; 1952: The Greatest Show on Earth (O Maior Espectáculo da Terra), de Cecil B. de Mille; Bend of the River ou Where the River Bends (Jornada de Heróis), de Anthony Mann; 1953: Thunder Bay (A Baía das Tormentas), de Anthony Mann; The Naked Spur (Esporas de Aço), de Anthony Mann; 1953: The Glenn Miller Story (A História de Glenn Miller), de Anthony Mann; 1954: Rear Window (Janela Indiscreta), de Alfred Hitchcock; 1955: Strategic Air Command (Asas no Céu), de Anthony Mann; The Far Country (Terra Distante), de Anthony Mann; The Man from Laramie (O Homem que Veio de Longe), de Anthony Mann; 1956: The Man Who Knew Too Much (O Homem que Sabia Demais), de Alfred Hitchcock; 1957: The Spirit of St. Louis (A Águia Solitária), de Billy Wilder; Night Passage (Duelo de Gigantes), de James Nielson ; 1958: Vertigo (A Mulher que Viveu Duas Vezes), de Alfred Hitchcock; Bell, Book and Candle (Sortilégio do Amor), de Richard Quine; 1959: Anatomy of a Murder (Anatomia de um Crime), de Otto Preminger; The FBI Story (Profissão Perigosa), de Melvyn Le Roy; The Mountain Road (Estrada da Montanha), de Daniel Mann; Two Rode Together (Terra Bruta), de John Ford; 1962: The Man Who Shoot Liberty Valance (O Homem que Matou Liberty Valance), de John Ford; Mr. Hobbs Takes a Vacation (O Senhor Hobbs Vai de Férias), de Henry Koster; 1963: Take Her, She's Mine (Esta Filha não é Minha), de Henry Koster; How the West Was Won (A Conquista do Oeste), de J. Ford, G. Marshall, H. Hathaway; 1964: Cheyenne Autumn (O Grande Combate), de John Ford; 1965: The Flight of the Phoenix (O Vôo da Fénix), de Robert Aldrich; 1966: The Rare Breed (Rancho Bravo), de A. V. McLaglen; Shenandoah (O Vale da Honra), de A. V. McLaglen; 1968: Bandolero! (Bandolero!), de A. V. McLaglen; Firecreek (A Hora da Fúria), de Vicent McEverty; 1970: The Cheyenne Social Club (Um Clube só para Cavalheiros), de Gene Kelly; 1971: Fools' Parade (Três Homens em Fuga), de A. V. McLaglen; 1976: The Shootist (O Atirador), de Don Siegel1977: Airport '77 (Aeroporto 1977), de Jerry Jameson; 1974: That’s Entertainment (Isto é Espectáculo), de J. Haley Jr. (comentário); 1978: The Big Sleep (O Sono Derradeiro), de Michael Winner; 1980: Afrika Monogatari, de Susumu Hani, Simon Trevor; 1991: An American Tail: Fievel Goes West (Um Conto Americano 2 - Fievel no Faroeste) (só voz).