terça-feira, 18 de abril de 2017

A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES


A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES (1958)


1. “A Mulher que Viveu Duas Vezes”. Consta que Alfred Hitchcock gostaria muito de adaptar ao cinema “Celle qui n'Était Plus”, um romance da dupla francesa, Pierre Boileau e Thomas Narcejac, entretanto adaptado em França, em 1955, por Henri-Georges Clouzot, com o título “Les Diaboliques”. Sabendo do interesse do realizador norte-americano, Boileau e Narcejac resolveram escrever um novo romance, "D'Entre les Morts", que enviaram a Hitch. Assim nasce “Vertigo”, que conta com o trabalho de Alec Coppel e Samuel A. Taylor na escrita do guião, com a colaboração, não referenciada no genérico, do escritor e dramaturgo Maxwell Anderson.
Extremamente original quando foi rodado, na forma como desenvolve a narrativa e nos processos técnicos utilizados (muitas vezes repetidos e copiados posteriormente, o que pode dar a sensação hoje em dia de não ser tão original quanto o foi em 1957), “A Mulher que Viveu Duas Vezes” é uma obra extremamente complexa, jogando com alguns dos temas caros a Hitchock. Um deles é a obsessão da culpa, outro a presença de uma loura capitosa, que oscila entre vítima indefesa e mulher fatal, um terceiro o recurso à psicanálise e aos complexos e pulsões eróticas desencadeados pelas teorias de Freud e continuadores, muito em voga por esses anos no cinema norte-americano. 


John Ferguson (o sempre notável James Stewart) é um polícia reformado, que sente a culpa de estar ligado à morte de um companheiro de equipa que, ao longo de uma perseguição pelos telhados de São Francisco, ao tentar salvá-lo de uma queda, acaba por sucumbir ele próprio no precipício. Ferguson não sente só a culpa desse acidente, como também fica refém de uma acrofobia que o impede de se aproximar de qualquer abismo, sofrendo de terríveis vertigens que lhe tolhem os movimentos e provocam o desmaio e a queda. Vive a tentar recuperar do trauma, na companhia de Midge Wood (a admirável Barbara Bel Geddes), uma designer que se apresenta como a imagem protectora e maternal de uma amiga e serena apaixonada que lhe dá a força necessária em momentos de maior inquietação. Um dia, Ferguson recebe a proposta de um antigo amigo, Gavin Elster (Tom Helmore), para reatar a sua actividade, agora como detective particular. A ideia é perseguir Madeleine Elster (a belíssima Kim Novak), mulher de Gavin, que atravessa um período conturbado, julgando assumir a personalidade de uma antiga antepassada que se matara. Gavin afirma temer pela sorte da mulher e quere-a acompanhada ao longo do dia, antecipando alguma tragédia. Ferguson acaba por aceitar a incumbência e a beleza de Madeleine e o mistério que a cerca acabará por enfeitiçar o ex-polícia. É difícil ir mais além a desenhar os contornos da trama sem lhe retirar suspense, o que, num filme do mestre do mesmo, seria indesculpável. 


Mas pode dizer-se que Ferguson não se liberta da sua acrofobia, e que alguém se aproveita dela para tentar cometer o crime prefeito. Pode ainda falar-se de uma obsessão amorosa que fulgurantemente galopa, e não se andará muito longe da verdade se se analisar, a certa altura do enredo, o comportamento de Ferguson que se aproxima muito de um sintomático pigmaleanismo, procurando recriar a mulher dos seus sonhos. Aliás a revisitação de alguns temas mitológicos clássicos e de alguns sonhos freudianos (há mesmo um pesadelo visual de Ferguson que revela alguma influência surrealista, sob a batuta de mestre Saul Bass) ao longo de toda a obra, que conta ainda com uma curiosa construção cromática, com alguns planos em viragem para um monocromatismo muito interessante de um ponto de vista simbólico, mas sobretudo como efeitos dramáticos conseguidos mercê de mão de mestre pela astúcia formal de Hitch. De um ponto de vista plástico, a obra é de uma elegância e de um beleza sufocantes, uma das mais rigorosas e perfeitas saídas deste genial manipulador de emoções. Há um efeito que começou desde então a ser conhecido como “a vertigem Hitchcock” e através do qual o cineasta consegue o efeito de vertigem conjugando um travelling manual recuando, com um zoom óptico de aproximação. Mas esta é apenas uma das originalidades desta obra-prima que, todavia, na noite da atribuição dos Oscars no ano, apenas se viu distinguida com duas nomeações para Melhor Direcção Artística e Melhor Som, que nem estes haveria de ganhar. Aliás, a recepção do público na época da estreia, foi razoavelmente boa, bem como a da crítica, sem todavia entusiasmar quem quer que seja. Nem a fabulosa partitura musical de Bernard Hermann suscitou na altura entusiasmo devido. 
O título só começou a ser devidamente valorizado a partir da década de 70, quando alguns realizadores (entre os quais Martin Scorsese e Brian De Palma), muito influenciados pela crítica europeia, lhe atribuíram um outro valor. Mas foi definitivamente depois do restauro, em 1996, que a obra saltou para os lugares de topo das listas dos Melhores de Sempre.
“A Mulher Que Viveu Duas Vezes” não é curiosamente o filme preferido de Hitch (chegou a confessar que uma das suas obras preferidas era “Shadow of a Doubt” - A Sombra de Uma Dúvida-, de 1943), mas, igualmente segundo as suas próprias palavras, terá sido “o seu filme mais pessoal”, onde a protagonista pode considerar-se a representação das mulheres da vida de Alfred Hitchcock.


2. “Vertigo” o melhor filme de sempre?... “Sight & Sound” é uma revista inglesa de crítica cinematográfica que apareceu em 1932, passando, a partir de 1934, a ser editada pelo BFI (British Film Institute).  A revista mantem-se ainda hoje como uma das publicações mais prestigiadas em todo o mundo. De edição mensal, dá igual importância a obras de grande público e de circuitos restritos, sendo dirigida por Gavin Lambert entre 1949 e 1955, depois (de 1956 a 1990), por Penelope Houston. Actualmente é da responsabilidade de Nick James. Em 1952, a “Sight & Sound” organizou um primeiro inquérito entre críticos, realizadores, historiadores, académicos e distribuidores de todo o mundo, solicitando a cada um deles a sua lista dos 10 Melhores Filmes de Sempre. Do cômputo geral saiu uma lista que tinha à frente “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio de Sica, e uma maioria de obras do cinema mudo: 1. Bicycle Thieves (25 votos), 2. City Lights (19), 2. The Gold Rush (19), 4. Battleship Potemkin (16), 5. Intolerance (12), 5. Louisiana Story (12), 7. Greed (11), 7. Le Jour se Leve (11), 7. The Passion of Joan of Arc (11), 10. Brief Encounter (10), 10. La Règle du Jeu (10) e 10. Le Million (10). Dez anos depois, a revista repetiu o inquérito, com resultados bastante diferentes. “Citizen Kane”, de Orson Welles, aparecia à frente: 1. Citizen Kane (22 votos), 2. L'Avventura (20), 3. La Règle du Jeu (19), 4. Greed (17), 4. Ugetsu Monogatari (17), 6. Battleship Potemkin (16), 7. Bicycle Thieves (16), 7. Ivan the Terrible (16), 9. La Terra Trema (14) e 10. L'Atalante (13). Em 1972, novo inquérito dava outro resultado, mantendo todavia “Citizen Kane” na dianteira: 1. Citizen Kane (32 votos), 2. La Règle du Jeu (28), 3. Battleship Potemkin (16), 4. 8½ (15), 5. L'Avventura (12), 5. Persona (12), 7. The Passion of Joan of Arc (11), 8. The General (10), 8. The Magnificent Ambersons (10), 10. Ugetsu Monogatari (9) e 10. Wild Strawberries (9).
Nova década passou e, em 1982, a votação sofreu algumas alterações, mas Welles manteve-se na dianteira: 1. Citizen Kane (45 votos), 2. La Règle du Jeu (31), 3. Seven Samurai (15), 3. Singin' in the Rain (15), 5. 8½ (14), 6. Battleship Potemkin (13), 7. L'Avventura (12), 7. The Magnificent Ambersons (12), 7. Vertigo (12), 10. The General (11) e 10. The Searchers (11). Não deixa de ser interessante verificar as alterações. Alguns títulos foram desaparecendo, outros surgindo, alguns subindo ou descendo em virtude do “gosto” da época. Em 1992, a iniciativa manteve-se e o primeiro lugar também: 1. Citizen Kane (43 votos), 2. La Règle du Jeu (32), 3. Tokyo Story (22), 4. Vertigo (18), 5. The Searchers (17), 6. L'Atalante (15), 6. The Passion of Joan of Arc (15), 6. Pather Panchali (15), 6. Battleship Potemkin (15) e 10. 2001: A Space Odyssey (14).
No primeiro inquérito do século XXI (2002), “Vertigo” começa a ameaçar “Citizen Kane” que, todavia, mantém a hegemonia durante 50 anos: 1. Citizen Kane (46 votos), 2. Vertigo (41), 3. La Règle du Jeu (30),4. The Godfather e The Godfather Part II (23), 5. Tokyo Story (22), 6. 2001: A Space Odyssey (21), 7. Battleship Potemkin (19), 7. Sunrise: A Song of Two Humans (19), 9. 8½ (18) e 10. Singin' in the Rain (17).
Em 2012, finalmente, a reviravolta: “Vertigo” em primeiro lugar, “O Mundo a Seus Pés” em segundo. Entretanto o universo de votantes também se alterou consideravelmente em número: 846 críticos, programadores, académicos e distribuidores, notando a ausência de realizadores que agora tinham uma votação à parte. Os resultados: Vertigo (191 votos), 2. Citizen Kane (157), 3. Tokyo Story (107), 4. La Règle du Jeu (100), 5. Sunrise: A Song of Two Humans (93), 6. 2001: A Space Odyssey (90), 7. The Searchers (78), 8. Man with a Movie Camera (68), 9. The Passion of Joan of Arc (65) e 10. 8½ (64).
A “Sight & Sound” desde 92 que mantem um votação isolada para realizadores, com resultados bastante diferentes nalguns aspectos. Em 1992: 1. Citizen Kane, 2. 8½, 3. Raging Bull, 4. La Strada, 5. L'Atalante, 6. The Godfather, 6. Modern Times, 6. Vertigo, 9. The Godfather Part II, 10. The Passion of Joan of Arc, 10. Rashomon e 10. Seven Samurai; Em 2002: 1. Citizen Kane; 2. The Godfather e The Godfather Part II, 3. 8½, 4. Lawrence of Arabia, 5. Dr. Strangelove, 6. Bicycle Thieves, 6. Raging Bull, 6. Vertigo, 9. Rashomon, 9. La Règle du Jeu, 9. Seven Samurai; Finalmente em 2012 os resultados também diferiram da lista mais vasta: 1. Tokyo Story (48 votos), 2. 2001: A Space Odyssey (42), 3. Citizen Kane (42), 4. 8½ (40), 5. Taxi Driver (34), 6. Apocalypse Now (33), 7. The Godfather (31), 07. Vertigo (31), 9. The Mirror (30) e 10. Bicycle Thieves (29).
Até agora esteve a falar-se sobretudo de filmes de ficção (com uma ou outra excepção documental). Em 2014, a “Sight & Sound” realizou um inquérito sobre os Melhores Documentários de Sempre. Por curiosidade, aqui ficam os resultados: 1. Man with a Movie Camera (100 votos), 2. Shoah (68), 3. Sans Soleil (62), 4. Night and Fog (56), 5. The Thin Blue Line (49), 6. Chronicle of a Summer (32), 7. Nanook of the North (31), 8. The Gleaners and I (27), 9. Dont Look Back (25) e 9. Grey Gardens (25).
Voltando a “Vertigo” e ao seu primeiro lugar em 2012, há que referir que a sua foi uma subida gradual, durante os últimos decénios, desde o sétimo lugar em 1998, passando por um quarto (2000), por um segundo (2002) para alcançar o topo da pirâmide em 2012. Esta progressiva subida quer dizer alguma coisa de consistente: o filme foi cada vez mais apreciado, sem dúvida. Mas, por outro lado, estes inquéritos comportam uma percentagem de incerteza muito grande quanto aos resultados. Primeiro que tudo há que avaliar o universo de convidados a votar. Se forem todos escolhidos em função de uma certa tendência estética ou geográfica, os resultados não podem ser consistentes. E sabe-se muito bem como se podem influenciar as conclusões, escolhendo sabiamente as premissas. Depois, as listas não são analisadas em função das preferências no interior de cada votante. Muito pelo contrário: cada filme é um voto e é da soma dos votos que sai o resultado final. Mas, quaisquer que sejam as dúvidas, são interessantes e esclarecedores os desfechos. Se será ou não o Melhor Filme de Sempre (ao cair do ano de 2012), não importa muito. É seguramente um dos Melhores Filmes de Sempre, o que já importa bastante. Para mim, já agora como nota pessoal, nunca o colocaria sequer entre os meus Dez Melhores. O que não invalida que o considere uma obra-prima inquestionável.


A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES
Título original: Vertigo.
Realização: Alfred Hitchcock (EUA, 1958); Argumento: Alec Coppel, Samuel A. Taylor, segundo romance de Pierre Boileau  e Thomas Narcejac ("D'Entre Les Morts"), como colaboração não creditado de Maxwell Anderson; Produção: Herbert Coleman, Alfred Hitchcock; Música: Bernard Herrmann; Fotografia (cor):  Robert Burks; Montagem: George Tomasini; Casting: Bert McKay; Direcção artística: Henry Bumstead, Hal Pereira; Decoração:  Sam Comer, Frank R. McKelvy; Guarda-roupa:  Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Westmore;  Direcção de Produção:  Frank Caffey, Andrew J. Durkus, C.O. Erickson, Don Robb;  Assistentes de realização: Daniel McCauley; Departamento de arte: Saul Bass (poster e genérico), Gene Lauritzen, Manlio Sarra (retrato de Carlota); Som: Winston H. Leverett, Harold Lewis;  Efeitos visuais: Farciot Edouart, John P. Fulton, W. Wallace Kelley, Paul K. Lerpae, John Whitney Sr.; Companhias de produção: Paramount Pictures, Alfred J. Hitchcock Productions; Intérpretes: James Stewart (John 'Scottie' Ferguson), Kim Novak (Madeleine Elster / Judy Barton), Barbara Bel Geddes (Midge Wood), Tom Helmore (Gavin Elster), Henry Jones (Coroner), Raymond Bailey  (médico de Scottie), Ellen Corby (gerente do McKittrick Hotel), Konstantin Shayne (Pop Leibel), Lee Patrick, David Ahdar, Isabel Analla, Jack Ano, Margaret Bacon, John Benson, Danny Borzage, Margaret Brayton, Paul Bryar, Steve Conte, Jean Corbett, Bruno Della Santina, Roxann Delman, Molly Dodd, Bess Flowers, Joe Garcio, Joanne Genthon, Don Giovanni, Roland Gotti, Victor Gotti, Fred Graham, Robert Haines, Buck Harrington, Alfred Hitchcock (homem a passear na rua, aos 11 minutos do filme), Jimmie Horan, Art Howard, Catherine Howard, June Jocelyn,  David McElhatton, Miliza Milo, Lyle Moraine, Forbes Murray, Julian Petruzzi, Ezelle Poule,  Kathy Reed, William Remick, Jack Richardson, Jeffrey Sayre, Nina Shipman, Dori Simmons, Ed Stevlingson, Sara Taft, etc. Duração: 129 minutos; Distribuição em Portugal: Midas Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Janeiro de 1959.

JAMES STEWART (1908-1997)
James Maitland Stewart nasceu a 20 de Maio de 1908, em Indiana, Pensilvânia, EUA, e faleceu a 2 de Julho de 1997, com 89 anos, em Los Angeles, Califórnia, EUA. Foi casado com a ex-modelo Gloria Hatrick McLean (1949-1994). Foi um actor de teatro, cinema e televisão, tendo protagonizado vários clássicos, sendo considerado um actor incomparável pelo público mundial. Foi nomeado cinco vezes para o Oscar, que ganhou em 1941, pelo seu trabalho em “The Philadelphia Story”. Na televisão conquistou o Globo Ouro de Melhor Actor, nasérie dramática, de 1974, “Hawkins”. Inicialmente, tentou arquitectura, mas acabaria no teatro, nos palcos da Broadway. Foi nos filmes de Frank Capra que começou a chamar a atenção para o seu trabalho no cinema, sobretudo a partir de “Mr. Smith Goes to Washington” (1939). Neste filme, James começou a construir o papel pelo qual mais tarde seria reconhecido, o de idealista convicto. Foi um actor que muitos realizadores gostavam de ter no elenco dos seus filmes. Por isso Hitchcock, Capra, Ford, Anthony Mann e alguns mais não o dispensavam na sua filmografia.  James Stewart morreu na sua casa, em Beverly Hills, de embolia pulmonar. Encontra-se sepultado no Forest Lawn Memorial Park, Glendale, em Los Angeles.


Filmografia / Cinema (principais filmes): 1934: Art Trouble (curta-metragem); 1935: The Murder Man, de T. Whelan; 1935: Rose Marie (Rose Marie), de W.S. Van Dyke ; 1938: The Shopworn Angel (Um Anjo no Inferno), de H. C. Potter; You Can't Take It with You (Não o Levarás Contigo), de Frank Capra; 1939: Mr. Smith Goes to Washington (Peço a Palavra), de Frank Capra; Made For Each Other (A Vida Começa Amanhã), de John Cromwell; Ice Folies of 1939 (O Turbilhão de Gelo), de R. Scheinzel; Destry Rides Again (A Cidade Turbulenta), de George Marshall; 1939: It's a Wonderful World (Afinal, o Mundo é Belo!), de Frank Capra; 1940: No Time for Comedy (A Vida é Uma Comédia), de William Keighley; The Philadelphia Story (Casamento Escandaloso), de George Cukor; The Shop Around the Corner (A Loja da Esquina), de Ernest Lubitsch; The Mortal Storm (Tempestade Mortal ou Tempos de Maldição), de Frank Borzage; 1941: Ziegfeld Girl (Sonho de Estrelas), de R. Z. Leonard; 1942: Come Live with Me (Compra-se Um Marido), de Clarence Brown; 1946: It's a Wonderful Life (Do Céu Caiu uma Estrela), de Frank Capra; Magic Town (A Cidade Mágica), de William A. Wellman; 1948: Rope (A Corda), de Alfred Hitchcock; On Our Merry Way (Tudo Pode Acontecer), de L. Fenton, K. Vidor, G. Stevens e J. Huston; Call Northside 777 (A Verdade Triunfou), de Henry Hathaway; 1949: The Stratton Story (Tenacidade), de Sam Wood; Malaya (Malaia), de Richard Thorpe; 1950: Winchester '73 (Winchester '73), de Anthony Mann; Broken Arrow (A Flecha Quebrada), de Delmer Daves; Harvey (Havey), de Henry Koster; 1951: No Highway in the Sky (Viagem fantástica), de Henry Koster; 1952: The Greatest Show on Earth (O Maior Espectáculo da Terra), de Cecil B. de Mille; Bend of the River ou Where the River Bends (Jornada de Heróis), de Anthony Mann; 1953: Thunder Bay (A Baía das Tormentas), de Anthony Mann; The Naked Spur (Esporas de Aço), de Anthony Mann; 1953: The Glenn Miller Story (A História de Glenn Miller), de Anthony Mann; 1954: Rear Window (Janela Indiscreta), de Alfred Hitchcock; 1955: Strategic Air Command (Asas no Céu), de Anthony Mann; The Far Country (Terra Distante), de Anthony Mann; The Man from Laramie (O Homem que Veio de Longe), de Anthony Mann; 1956: The Man Who Knew Too Much (O Homem que Sabia Demais), de Alfred Hitchcock; 1957: The Spirit of St. Louis (A Águia Solitária), de Billy Wilder; Night Passage (Duelo de Gigantes), de James Nielson ; 1958: Vertigo (A Mulher que Viveu Duas Vezes), de Alfred Hitchcock; Bell, Book and Candle (Sortilégio do Amor), de Richard Quine; 1959: Anatomy of a Murder (Anatomia de um Crime), de Otto Preminger; The FBI Story (Profissão Perigosa), de Melvyn Le Roy; The Mountain Road (Estrada da Montanha), de Daniel Mann; Two Rode Together (Terra Bruta), de John Ford; 1962: The Man Who Shoot Liberty Valance (O Homem que Matou Liberty Valance), de John Ford; Mr. Hobbs Takes a Vacation (O Senhor Hobbs Vai de Férias), de Henry Koster; 1963: Take Her, She's Mine (Esta Filha não é Minha), de Henry Koster; How the West Was Won (A Conquista do Oeste), de J. Ford, G. Marshall, H. Hathaway; 1964: Cheyenne Autumn (O Grande Combate), de John Ford; 1965: The Flight of the Phoenix (O Vôo da Fénix), de Robert Aldrich; 1966: The Rare Breed (Rancho Bravo), de A. V. McLaglen; Shenandoah (O Vale da Honra), de A. V. McLaglen; 1968: Bandolero! (Bandolero!), de A. V. McLaglen; Firecreek (A Hora da Fúria), de Vicent McEverty; 1970: The Cheyenne Social Club (Um Clube só para Cavalheiros), de Gene Kelly; 1971: Fools' Parade (Três Homens em Fuga), de A. V. McLaglen; 1976: The Shootist (O Atirador), de Don Siegel1977: Airport '77 (Aeroporto 1977), de Jerry Jameson; 1974: That’s Entertainment (Isto é Espectáculo), de J. Haley Jr. (comentário); 1978: The Big Sleep (O Sono Derradeiro), de Michael Winner; 1980: Afrika Monogatari, de Susumu Hani, Simon Trevor; 1991: An American Tail: Fievel Goes West (Um Conto Americano 2 - Fievel no Faroeste) (só voz). 

O REI E EU


O REI E EU (1956)

Vejamos um pouco de História. Quem foi Anna Leonowens e o Rei Mongkut do Sião, que aparecem como protagonistas desta história que tem dado a volta ao mundo como peça de teatro musical e igualmente como filme. Pois bem, Anna Leonowens (as senhoras primeiro) nasceu na Índia, a 5 de Novembro de 1831, em Ahmadnagar, nesse tempo colónia inglesa. Órfã de pai antes de nascer, ficou com a mãe e teve vida atribulada. A família era numerosa (entre eles um jovem sobrinho, de nome William Henry Pratt, conhecido no cinema como Boris Karloff) e Anna farta-se de viajar, passa pelo Egipto e a Palestina, volta à Índia, casa-se com Thomas Leon Owens ou Leonowens, continuam o périplo pela Austrália até chegarem a Singapura. Depois de várias peripécias, Thomas encontra emprego como guarda de hotel, mas morre subitamente, de apoplexia. Anna vive com dificuldade e resolve abrir uma escola para os filhos dos oficiais britânicos em Singapura. Economicamente não foi um sucesso, mas impôs uma reputação com pedagoga. Tanto assim é que, em 1862, Tan Kim Ching, cônsul do Sião (hoje Tailândia) em Singapura, propõe-lhe entrar ao serviço do rei Mongkut (Rama IV), como professora de inglês (ou preceptora, há várias versões) dos seus inúmeros filhos. Aceita e parte para Banguecoque, onde passa por uma experiência particularmente interessante, sob o ponto de vista de choque, ou confronto, de civilizações e culturas. Dessa permanência no Sião resultaram dois livros de memórias, “The English Governess at the Siamese Court” e “The Romance of the Harem”, que têm sido alvo de vários estudos sobre a influência, ou não, de Anna Leonowens na modernização do Sião (levada a efeito sobretudo por Rama V, um dos filhos de Rama IV, e, portanto, um dos alunos de Anna). Fim de história de Anna Leonowens: quando deixou o Sião emigrou para a Nova Escócia, depois para o Canadá, Montreal, onde morreu em 1915.


Em 1943, a escritora norte-americana Margaret Landon, partindo destas obras, publica um romance, “Anna and the King of Siam”, que irá conhecer grande sucesso e dar origem a diversos filmes, peças de teatro, séries de televisão, etc. A maioria destas obras foi proibidas na Tailândia.
Quanto a Mongkut (1804 - 1868), o rei do Sião, foi um monarca que abriu o seu reino à influência estrangeira, sobretudo ocidental, e que afastou a cobiça colonial, ao renunciar ao Cambodja, ao Laos e à Malásia. Adoptou várias inovações tenológicas ocidentais, assim como aceitou o diálogo cultural com o Ocidente.  Chamavam-lhe “o Pai da Ciência e da Tecnologia”.
A primeira adaptação para cinema do romance de Margaret Landon deu-se em 1946, pela mão do realizador John Cromwell, “Ana e o Rei do Sião” (Anna and the King of Siam), com Irene Dunne, Rex Harrison e Linda Darnell.
A adaptação seguinte foi para teatro, “The King and I”, que estreou no St. James Theatre, em Nova Iorque, estendendo a sua temporada entre 29 de Março de 1951 e 20 de Março de 1954, durante 246 representações. Gertrude Lawrence e Yul Brynner foram os protagonistas, e a coreografia tinha a assinatura de Jerome Robbins. A encenação era de John Van Druten. O sucesso foi tal que a versão cinematográfica deste musical teatral demorou pouco a chegar aos ecrãs mundiais. “O Rei e eu” (The King and I), data de 1956, com o mesmo Yul Brynner no papel do rei Mongkut. Gertrude Lawrence, entretanto falecida, daria o seu papel a Debora Kerr. O filme teve um êxito monumental, mobilizando público e ganhando o aplauso da crítica. Também nos Oscars não se portou nada mal. Foi nomeado para nove Oscars, entre os quais o Melhor Filme, Melhor Realização (Walter Lang), Melhor Actriz (Debora Kerr) e Melhor Fotografia a cores (Leon Shamroy), tendo ganhou cinco, Melhor Actor (Yul Brynner), Melhor Partitura Musical (Alfred Newman & Ken Darby), Melhor Direcção Artística a Cores e Melhor Decoração (Lyle R. Wheeler, John DeCuir, Walter M. Scott, Paul S. Fox), Melhor Guarda Roupa (Irene Sharaff) e Melhor Som (Carlton W. Faulkner).
Em 1972, surgiu uma série televisiva, de 13 episódios, interpretada por Yul Brynner e Samantha Eggar, "Anna and the King", e, posteriormente, em 1999, aparece “Ana e o Rei”, uma versão que é a única a fugir ao romance de Margaret Landon e a ir beber directamente a fonte do seu argumento às memórias de Anna Leonowens. O filme foi dirigido por Andy Tennant e tinha como protagonistas Jodie Foster e  Yun-Fat Chow. Há ainda a referir, em 1999, um filme de animação, “The King and I”, com realização de Richard Rich e vozes de Miranda Richardson e Martin Vidnovic, que não esquece os temas musicais de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II.


Acompanhar as criações em palco do musical teatral seria impossível, tantas e tão variadas são, mas poderão citar-se algumas. Em 1977, no Theatre Owned, Yul Brynner regressa à personagem, agora acompanhado por Constance Towers; em 1985, novamente Yul Brynner, agora contracenando com Mary Beth Peil, volta à ribalta, desta feita no palco do Broadway Theatre. Falecido Yul Brynner, a 10 de Outubro de 1985, as versões seguintes já não contavam com a sua exótica e carismática contribuição. Por isso “The King and I”, no Neil Simon Theatre, em 1996, foi interpretado por uma dupla novidade: Donna Murphy e Lou Diamond Phillips. O mesmo aconteceu com a mais recente reposição em Nova Iorque deste musical de sucesso garantido. Kelli O'Hara e Ken Watanabe foram os actores principais que reviveram a estranha ligação entre Anna e o rei do Sião, no Vivian Beaumont Theatre, entre 2015 e 2016. 499 representações. Um êxito que continua.
Regressando à versão cinematográfica de 1956, de que nos ocupamos agora, o filme de Walter Lang persiste e acentua, se possível, todas as dúvidas (ou todas as certezas?) levantadas pelos diários memorialistas de Anna Leonowens, bem como toda a desconfiança histórica do romance de Margaret Landon. Nada do que aqui é narrado tem qualquer consistência histórica, e assemelha-se muito a recordações romanescas de uma preceptora nostálgica e preconceituosa e de uma romântica romancista que encontrou no material biográfico de Anna Leonowens saborosa matéria romanesca para escrever um best seller. As versões teatrais e cinematográficas desenvolvem e prolongam esta auspiciosa operação. O melhor, portanto, é não dar (quase) nenhuma importância histórica a estas criações ficcionadas, livremente inspiradas em factos mais ou menos reais, e ficarmo-nos pelo que vemos, no caso do filme em apreço.
O que vemos é um grandioso espectáculo musical, ligando um conjunto de magníficas canções, envolvido o todo por cenários luxuriantes, uma fotografia de tons sumptuosos, um guarda-roupa verdadeiramente exuberante, servido por bons actores, alguns dobrados (Deborah Kerr terá mesmo perdido o Oscar de Melhor Actriz, por ter sido dobrada nas canções por Marni Nixon), e uma realização cuidada e eficaz, que aqui e ali surpreende pela positiva (há excelentes momentos, nomeadamente a sequência de dança entre o rei e Anna, um must na história do musical, ou o bailado inspirado em “A Cabana do Pai Tomás”). Depois o filme ostenta aquele tom de quem não se leva muito a sério, com uma ironia subtil, que os actores apimentam com o seu talento. Nesse aspecto, Yul Brynner que alguns consideravam um canastrão, mostra muitas qualidades, um saudável sentido de humor, e obviamente um carisma muito especial que a sua careca acentuava, reafirmando uma virilidade mais ou menos óbvia. Este foi o filme da sua consagração definitiva e a personagem de uma vida.


O REI E EU
Título original: The King and I
Realização: Walter Lang (EUA, 1956); Argumento: Ernest Lehman, segundo Oscar Hammerstein II e Margaret Landon, do musical teatral baseado em “Anna and the King of Siam”, desta última autora; Produção: Charles , Darryl F. Zanuck; Música: Alfred Newman;  Fotografia (cor): Leon Shamroy; Montagem: Robert L. Simpson; Direcção artística: John DeCuir, Lyle R. Wheeler; Decoração: Paul S. Fox, Walter M. Scott; Guarda-roupa: Irene Sharaff; Maquilhagem: Ben Nye, Helen Turpin, Hal Lierley; Coreografia: Jerome Robbins; Assistentes de realização: Eli Dunn; Departamento de arte: Wah Chang, Larry Haddock, George Westenhiser; Som: Warren B. Delaplain, E. Clayton Ward, Carlton W. Faulkner;  Efeitos especiais: Doug Hubbard; Efeitos visuais: Ray Kellogg; Companhias de produção: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Intérpretes: Deborah Kerr (Anna Leonowens), Yul Brynner (Rei Mongkut do Sião), Rita Moreno (Tuptim), Martin Benson (Kralahome), Terry Saunders (Lady Thiang), Rex (Louis Leonowens), Carlos Rivas (Lun Tha), Patrick Adiarte (Principe Chulalongkorn), Alan Mowbray (Sir John Hay), Geoffrey Toone (Sir Edward Ramsay), Leo Abbey, Robert Banas, Dennis Bonilla, Thomas Bonilla, Jerry Chien, Nancy Chien, Mary Lou Clifford, Judy Dan, Gemze De Lappe, Amir Farr, Henry Fong, Margaret Fukuda, etc. Duração: 133 minutos; Distribuição em Portugal: Fox Filmes; (DVD): LNK; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: Tivoli, 22 de Outubro de 1956.

Principais números musicais: Overture (20th Century-Fox Orchestra); I Whistle a Happy Tune (Deborah Kerr, dobrada por Marni Nixon) e Rex Thompson; The March of the Siamese Children (20th Century-Fox Orchestra); Hello, Young Lovers (Deborah Kerr, dobrada por Marni Nixon); A Puzzlement (Yul Brynner); Getting to Know You (Deborah Kerr, dobrada por Marni Nixon) e Chorus; We Kiss in a Shadow (Carlos Rivas, dobrado por Reuben Fuentes, e Rita Moreno, dobrada por Leona Gordon); Something (Terry Saunders),; Finale, Act (Yul Brynner e Coros); Entr'acte (20th Century-Fox Orchestra); The Small House of Uncle Thomas (Ballet) (narrado por Rita Moreno, Coros e bailarinos); Song of the??? (Yul Brynner); Shall We Dance? (Deborah Kerr, dobrada por Marni Nixon)) e Yul Brynner; Finale (Something Wonderful) (Coros).

YUL BRYNNER (1920 – 1985)
Juli Borisovitch Bryner, nome de baptismo de Yul Brynner, nasceu a 11 de Julho de 1920, em Vladivostok, na URSS, e viria a falecer a 10 de Outubro de 1985, em Nova Iorque, EUA, com 65 anos. (Algumas fontes indicam que nasceu a 7 de Julho de 1915, na ilha de Sakhaline, na Rússia). Era filho de Boris Bryner, engenheiro suíço, e de Marousia Blagоvidova, filha de um médico russo, judeu. Em 1927, Boris Bryner abandona a família, e Marousia leva os filhos, Yul e Vera, para Harbin, na China, onde frequentam uma escola cristã. Em 1934, vamos, porém, já encontrar a família em Paris, com Yul Brynner a tocar guitarra em clubes nocturnos para ajudar ao sustento da família. Toma contacto com o mundo intelectual, conhece Jean Cocteau, entra para o Théâtre des Mathurins, como aprendiz, trabalha como trapezista no Cirque d’Hiver, até que uma queda lhe provoca fracturas várias e o leva a abandonar o circo, passando a maquinista do grupo de Georges Pitoeff. Em 1941, parte para os EUA para estudar teatro com Michael Tchekhov. Estreia-se na Broadway, com o nome de Youl Bryner. A sua primeira participação no cinema data de 1949, mas logo pouco depois se torna primeira figura na interpretação de “O Rei e Eu”, uma personagem que não mais o irá largar, no teatro, no cinema, na televisão. Esta comédia musical de Richard Rogers e Oscar Hammerstein II sobe à cena na Broadway em 1951, e nela Yul Brynner interpreta a figura do Rei do Sião. Seria depois adaptada ao cinema, a série televisiva e de novo regressaria aos palcos em 1977, nos EUA, e em 1979, em Londres, e, novamente na Broadway, em 1985. Em 1952 recebe o Tony de melhor actor de comédia musical e representa-a 4 525 vezes no teatro. O filme de 1956, dirigido por Walter Lang, permite-lhe ganhar o Oscar de Melhor Actor. Foi um dos nove únicos actores da história do teatro e do cinema que ganhou o Tony e o Oscar pela interpretação da mesma personagem. Para compor esta figura rapou o cabelo, o que depois manteria ao longo da sua vida como imagem de marca e como modelo para a juventude desse tempo, que começou a rapar o cabelo “à Yul Brynner”. Depois de “O Rei e Eu”, a carreira de Yul Brynner conhece grandes sucessos: entre os quais, “Os Dez Mandamentos”, “Anastácia”, “Os Irmãos Karamazov”, “Salomão e a Rainha de Saba”, “Os Sete Magníficos”, “Taras Bulba”, “Convite a um Pistoleiro”, “Morituri”, “Romance de um Ladrão de Cavalos”, “O Mundo do Oeste”, entre muitos mais.
Além de inglês e francês, que falava perfeitamente, ainda dominava de alguma forma mais oito línguas. Possui uma estrela no Walk of Fame, no 6162 Hollywood Boulevard. A casa onde nasceu em Vladivostok foi transformada num museu em sua honra. Casou quatro vezes: Virginia Gilmore (1944-1960), Doris Kleiner (1960-1967), Jacqueline Thion de La Chaume (1967-1981), Kathy Lee (1983-1985). No início dos anos 50 teve um caso passional muito badalado com Marlène Dietrich.
Publicou duas obras de fotografia, uma das suas grandes paixões, e ainda dois outros livros : “Bring forth the children : A journey to the forgotten people of Europe and the Middle East” (1960) e “The Yul Brynner Cookbook : Food Fit for the King and You” (1983), uma obra dedicada à gastronomia.
Em meados da década de 80 foi surpreendido por um cancro nos pulmões, e depois disso dedica-se a algumas campanhas anti-tabagistas. Morre em Nova Iorque, no dia 10 de Outubro de 1985, no mesmo dia em que faleceu Orson Welles, com quem tinha contracenado em “A Batalha de Neretva”. As cinzas foram depositadas no cemitério particular de Touraine, Abbaye Royale Saint-Michel de Bois-Aubry, em Indre-et-Loire.


Filmografia / Como actor (principais filmes): 1944: Mr. Jones and His Neighbors (série de TV); Port of New York (No Porto de Nova Iorque), de László Benedek; 1956: The King and I (O Rei e Eu), de Walter Lang; The Ten Commandments (Os Dez Mandamentos), de Cecil B. DeMille; Anastasia (Anastásia), de Anatole Litvak; 1958: The Brothers Karamazov (Os Irmãos Karamazov), de Richard Brooks; The Buccaneer (O Corsário Lafitte), de Anthony Quinn; The Sound and the Fury (O Grito da Fúria), de Martin Ritt; Solomon and Sheba (Salomão e a Raínha de Saba), de King Vidor; Le Testament d'Orphée (O Testamento de Orfeu), de Jean Cocteau (não creditado); 1960: Once More, with Feeling (Arrebatamento) de Stanley Donen; Surprise Package (A Vida é uma Surpresa) de Stanley Donen; The Magnificent Seven (Os Sete Magníficos) de John Sturges; 1962: Taras Bulba (Taras Bulba), de J. Lee Thompson; 1963: Kings of the Sun (Os Reis do Sol), de J. Lee Thompson; 1964: Invitation to a Gunfighter (Convite a um Pistoleiro), de Richard Wilson; 1965: Morituri (Morituri), de Bernhard Wicki; 1966: Return of the Magnificent Seven (O Regresso dos Sete Magníficos), de Burt Kennedy; Triple Cross (O Maior Espião da História), de Terence Young; 1967: The Double Man (O Duplo Homem), de Franklin J. Schaffner; The Long Duel (Duelo sem Tréguas) de Ken Annakin; 1968: Villa Rides (A Honra de um Herói) de Buzz Kulik; 1969: The Madwoman of Chaillot (A Louca de Chaillot), de Bryan Forbes; 1971: Romance at Horsethief ou Romansa konjokradice (Romance de um Ladrão de Cavalos), de Abraham Polonsky; 1973: The Serpent (A Serpente de Ouro) de Henri Verneuil; Westworld (O Mundo do Oeste) de Michael Crichton; 1975: The Ultimate Warrior (Um Novo Amanhecer) de Robert Clouse; 1976: Futureworld (O Mundo do Futuro), de Richard T. Heffron.

sexta-feira, 17 de março de 2017

JUBAL


JUBAL (1956)

Na história do western os anos 50 foram particularmente interessantes, por várias razões. Antes da indicação “western” ser corrente, como designação de certo peso cultural, existiam os “filmes de cowboys”, muito populares durante a época do mudo e até meados da década de 30. Até aqui tudo era muito claro e maniqueísta, havia os bons e os maus, normalmente os brancos e os pretos na cor dos fatos e dos cavalos, mas também por vezes na cor da pele. Mas, quanto à diferenciação rácica, havia sobretudo distinção entre os brancos e os vermelhos (sem sequer haver associação política à cor, mas sim aos peles-vermelhas).
Depois o western começou a impor-se com outra importância artística e cultural, entrou-se na época dos grandes clássicos, como “Stagecoach”, de John Ford, e tantos outros. A introdução do sonoro permitiu uma maior complexidade das intrigas e começaram-se a discutir temas importantes, de um ponto de vista histórico e social. Mas em finais da década de 40 e durante todos os anos 50 o western ganhou uma nova dimensão, por vários motivos. O incremento das ideias de Freud e da psicanálise, que entraram abertamente no território norte-americano, a emancipação da mulher, depois do esforço imposto pela II Guerra Mundial, e a guerra fria, o macartismo e todas as consequências decorrentes destes fenómenos contaminaram o western com temas, ideias, figuras, situações que não eram muito populares até aí.
Para caracterizar estas posições assumidas pelos autores de westerns na década de 50 podemos socorrermo-nos das palavras de Barthémely Amengual (um dos grandes especialistas do género, in “lmage et Son”, n. 97, 1956), escritas por essa altura: “Neo-western, sur-western, anti-westem, western romanesco... a crítica não sabe como baptizar (ou definir) o western contemporâneo (ia a dizer adulto, o que seria injurioso para os antigos êxitos ...)”. Ou ainda de André Bazin (in “Cahiers du Cinéma”, n. 054, 1955): “Chamarei convencionalmente sur-western ao conjunto das formas adaptados pelo género, no pós-guerra. Mas não procurarei dissimular que a expressão vai soçobrar pela necessidade de exposição de fenómenos nem sempre comparáveis. Ela pode, no entanto, justificar-se negativamente por oposição ao classicismo dos anos 40 e, sobretudo, à tradição de que é a resultante. Digamos que o sur-western é um western que teria vergonha de ser ele mesmo e procurasse justificar a sua existência por um interesse suplementar: de ordem estética, sociológica, moral, psicológica, política, erótica..., logo, por qualquer valor extrínseco ao género e que se supõe vir enriquecê-lo.”
Estas palavras dão bem a medida do que foi o western do pós-guerra. O classicismo dos anos anteriores cede o lugar à heterodoxia, conjugando elementos de índole diversa com a tradição e a mitologia próprias do género. O que não pode deixar de ser significativo de uma nova mentalidade. O western deixou de ser considerado um terreno puro, “intoxicou-se” (no dizer de Nuno Portas, num texto relativo a “Johnny Guitar”). Recusada a pureza original, viu-se contaminado por intenções várias. “O Comboio Apitou Três Vezes” (1953), de Fred Zinnemann, é um bom exemplo deste período fértil em obras de corajosa denúncia racial, política (reacção ao macarthismo, nomeadamente), social e moral. No entanto, uma das obras mais frisante desta época de transição é indubitavelmente “Shane” (1953), de George Sleven. As interferências externas prolongam-se, entrando por campos até aí pouco explorados. Surgem os primeiros casos de erotismo na história do filme do Oeste em certa medida como consequência da inflação da “pin up” durante a guerra. Uma progressão irreversível que vai do próprio “A Terra dos Homens Perdidos”, de Howard Hughes e Hawks ao “Rio sem Regresso” (1954), de Otto Preminger, passando pelo paroxismo de um “Duelo ao Sol”, de Vídor,
Convém, no entanto, fazer notar dentro desta mesma tendência moderna do western duas vias possíveis de desenvolvimento: uma que vai ao encontro de toda a mitologia do género e que a enriquece de dentro (com cineastas como Howard Hawks, Nicholas Ray, Anthonny Mann, Raoul Walsh ... ) e uma outra, onde essa intoxicação se processa do exterior, ou seja, como imposição prévia (neste caso estão autores como Fred Zinnemann, John Sturges, Robert Aldrich, Richard Brooks, Delmer Daves, entre outros). Enquanto um western de Anthony Mann não seria pensável senão sob a forma western, o mesmo não sucederia em relação a “O Comboio Apitou Três Vezes”, “Lança Quebrada” ou “Vera Cruz”. Os problemas centrais deste neo-western ultrapassam o género e situam-se a um nível de debate de ideias e conceitos que se poderiam igualmente equacionar num policial ou “filme negro”, numa comédia ou num austero filme de tese.
De qualquer forma, e quer a aludida intoxicação se processe de dentro para fora ou inversamente, o que está em causa é a consciencialização dos cineastas norte-americanos que, passada que foi (com mágoa) a época liberal do “New-Deal”, se encontraram a braços com uma América inesperadamente em crise, crise que não é só económica, mas igualmente social, moral, politica, psicológica, afectada profundamente pela desilusão do pós-guerra e pela realidade da guerra fria. Afinal, uma nova crise em que valores antigos deixam de se ajustar a realidades presentes. Desse desajuste nasce esse novo western, moderno em relação aos valores clássicos, que pode ser testemunhado, entre muitos outros, em títulos como “Johnny Guitar” (Ray, 1953), “Esporas de Aço” (Mann, 1952), “O Homem Que Veio de Longe” (Mann, 1954), “Céu Aberto” (Hawks, 1951), “A Lança Quebrada” (Dmytryck, 1954), “Homem sem Rumo” (Vidor, 1954), “A Última Caçada” (Brooks, 1955) ou “Jubal” ou “O Comboio das 3 e 10” (Daves, 1956 e 1957). 

Entramos, portanto, no caso muito especifico de “Jubal” que se apoia, nada mais nada menos, do que numa peça teatral de Shakespeare, ou mesmo nas óperas de Gioachino Rossini ou Giuseppe Verdi, para não falar de tantas outras formas de arte que se inspiraram na tragédia do famoso general árabe de Veneza. A história é sabida de todos, tão popular é: Othello, casado com Desdémona, tem em Cassio, um fiel ajudante, e em Iago, um rival intriguista e desleal. Vingando a promoção de Cassio, que considera injusta, inventa uma traição deste, acusando-o de amores adúlteros com Desdémona, o que irá provocar uma terrível tragédia. Um tema eterno que coloca em causa temas como o ciúme, o amor, a traição, a vingança e, no caso de Shakespeare, o racismo.
O filme de Delmar Daves anula o caso do racismo, pois todos os protagonistas são brancos, mas mantem tudo o resto em equação, partindo de um romance de Paul Wellman, o próprio Daves e Russell S. Hughes adaptaram. Em lugar do tema racismo, Daves acerca-se de um conflito que já fizera parte central de “Shane”: a luta entre os grandes barões do gado e os pequenos proprietários ou criadores de porcos ou ovelhas. Tudo se passa em Jackson Hole, em Wyoming, onde Jubal Troop (Glenn Ford) aparece, vindo não se sabe de onde, mas cai nas graças de Shep Horgan (Ernest Borgnine), um fazendeiro bem-humorado e generoso, que lhe oferece trabalho e hospitalidade. Quem não se mostra tão afectuoso é Pinky (Rod Steiger), que gostaa de ser o preferido de Shep e vê a sua posição vacilar perante a chegada de Jubal. Tanto mais que Mae ((Valerie French)), a jovem mulher de Shep, parece igualmente preferir Jubal a Pinki, na sua necessidade evidente de afecto e algo mais. O resto é “Othello” adaptado ás pradarias do Oeste, com inteligência, critério e um excelente esboço social e humano a suportar a intriga.


Delmer Daves (1904–1977) é um cineasta particularmente interessante, nem sempre devidamente avaliado. Repartiu grande parte das suas obras entre o western e o melodrama, e nos dois campos, assinou obras de referência. Depois de um início de carreira onde tocou um pouco em todas as teclas dos géneros (“Rumo a Tóquio”, 1943;  “Sonho em Hollywood”, 1944; “Uma Luz nas Trevas”, 1945; “A Casa Vermelha”, 1947; e esse magnifico “O Prisioneiro do Passado”, 1947, com Humphrey Bogart), Delmer Daves passou a dividir,quase exclusivamente, a sua filmografia por westerns líricos, vibrantes, sensuais e românticos (“A Flecha Quebrada”, 1950;  “A Última Caravana” e “Jubal”, 1956; “O Comboio das 3 e 10”, 1957; “Cowboy - Como Nasce Um Bravo” e “Os Homens das Terras Bravas”, 1958; ou “Raízes de Ouro”, 1959) e melodramas se exasperado sentimentalismo, mas sempre dirigidos com rigor e contensão, numa linha que se aproxima muito do mestre deste género, Douglas Sirk (“Carne da Minha Carne” e “Bonecas de Carne”, 1961; “Escândalo ao Sol”, 1959; “Viver é o que Importa”, 1962, “Febre de Viver”, 1964; ou “Escândalo em Villa Fiorita”, 1975).
Jubal é um filme que demonstra muitas das qualidades do cinema apaixonado e vigoroso de Delmer Daves, um homem que gosta de explorar os grandes espaços naturais, mas igualmente mestre no aproveitamento de interiores, onde se encerram muitos dos seus conflitos. Cenários de cores quentes, onde as paixões explodem ou se controlam e as emoções se atiçam são a base para excelentes actores se exercitarem, por vezes com métodos e formas de representar diversos, o que torna ainda mais aliciante o seu confronto.  Glenn Ford, Ernest Borgnine, Rod Steiger, Valerie French, Charles Bronson, Jack Elam, Felicia Farr, Noah Beery, Jr., ou Basil Ruysdael são magnificos nas suas composições, assim como são de ressalvar a bela fotografia de Charles Lawton Jr. e a partitura musical de David Raksin.


JUBAL
Título original: Jubal
Realização: Delmer Daves (EUA, 1956); Argumento: Russell S. Hughes, Delmer Daves, segundo romance de Paul Wellman; Produção: William Fadiman; Música: David Raksin; Fotografia (cor): Charles Lawton Jr.; Montagem: Al Clark; Direcção artística: Carl Anderson; Decoração: Louis Diage; Guarda-roupa: Jean Louis;  Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt; Assistentes de realização: Eddie Saeta; Som: John P. Livadary, Harry Smith; Companhias de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: Glenn Ford (Jubal Troop), Ernest Borgnine (Shep Horgan), Rod Steiger ('Pinky' Pinkum), Valerie French (Mae Horgan), Felicia Farr (Naomi Hoktor), Basil Ruysdael (Shem Hoktor), Noah Beery Jr. (Sam - Horgan Rider), Charles Bronson (Reb Haislipp), John Dierkes (Carson), Jack Elam (McCoy), Robert Burton (Dr. Grant), John L. Cason, Michael Daves, Juney Ellis, Don C. Harvey, Robert 'Buzz' Henry, Larry Hudson, Robert Knapp, Ann Kunde, William Rhinehart, etc. Duração: 100 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: Cinema Império, 23 de Junho de 1957.


GLENN FORD (1916-2006)
Glenn Ford, de nome de baptismo Gwyllyn Samuel Newton Ford, nasceu a 1 de Maio de 1916, no Quebeque, Canadá, e faleceu a 30 de Agosto de 2006, com 90 anos, em Beverly Hills, Califórnia, EUA. Filho de um executivo ferroviário, com oito anos de idade muda-se para Santa Mónica, na Califórnia, e torna-se cidadão americano em 1939. Estudou na High School de Santa Mónica, e estreia-se como actor aos 19 anos. Integra várias companhias, até chegar à Broadway. Contratado pela 20th Century Fox, passa para a Columbia, onde roda cerca de 50 filmes em 18 anos, sobretudo western de pequeno orçamento e de realizadores medianos. Passa pelos US Marines Corps, durante a II Guerra Mundial e, de regresso, integra-se no elenco da Columbia, onde assegura um lugar destacado. A partir de “Gilda” a sua áurea aumenta e durante alguns anos tentam reeditar o êxito da dupla Hayworth-Ford, sem nunca atingir a intensidade do original. Mas interpretou muitos e bons papéis, dirigido por grandes cineastas, como Fritz Lang, Richard Brooks, Vincente Minnelli, e manteve uma clientela fiel, tanto no cinema, como posteriormente na televisão. Envelheceu mal, dado ao álcool e a irascibilidade. Ao receber um prémio, concedido por uma revista da especialidade, protagonizou um episódio infeliz: recusou-se sentar ao lado de um outro actor, negro. Casado com Eleanor Powell (1943-1959), Kathryn Hays (1966-1969), Cynthia Hayward (1974-1977) e Jeanne Baus (1993-1994). Teve ainda conhecidas ligações com Zsa Zsa Gabor, Hope Lange, Rita Hayworth, Connie Stevens, Joan Crawford, Dinah Shore, Brigitte Bardot, Debbie Reynolds, María Schell, Linda Christian, Judy Garland, entre outras, que não acabaram em casamento. Glenn Ford sofreu de problemas cardíacos durante a fase final da sua vida. Ganhou um Globo de Ouro, em 1962, pelo seu desempenho em “Pocketful of Miracles”. Tem uma estrela no “Passeio da Fama”, em 6933 Hollywood Blvd.

Filmografía (principais filmes): 1939: My Son Is Guilty (O Filho de um Gangster), de Charles Barton; 1940: The Lady in Question (Acusada, Levante-se!), de Charles Vidor; 1941: So Ends Our Night (Regresso a Berlim), de John Cromwell; 1941: Texas (Texas), de George Marshall; 1943: The Desperadoes (Bandidos), de Charles Vidor; 1943: A Stolen Life (Uma Vida Roubada), de Curtis Bernhardt; 1946: Gilda (Gilda), de Charles Vidor; 1948: The Loves of Carmen (Amores de Carmen), de Charles Vidor; 1948: The Man From Colorado (Pena de Talião), de Henry Levin; 1949: Lust for Gold (Oiro Maldito), de S. S. Simon; 1952: Affair in Trinidad (Calypso, a Feiticeira da Ilha), de Vincent Sherman; 1953: The Man from Alamo (Invasores), de Budd Boetticher; 1953: The Big Heat (Corrupção), de Fritz Lang; 1953: Appointment in Honduras (Encontro nas Honduras), de Jacques Tourneur; 1954: Human Desire (Desejo Humano), de Fritz Lang; 1955: The Americano (O Americano), de William Castle; 1955: The Violent Men (Homens Violentos), de Rudolph Maté; 1955: The Blackboard Jungle (Sementes de Violência), de Richard Brooks; 1955: Interrupted Melody (Melodia Interrompida), de Curtis Bernhardt; 1955: Trial (A Fúria dos Justos), de Mark Robson; 1956: Jubal (Jubal), de Delmer Daves; 1956: The Teahouse of the August Moon (A Casa de Chá do Luar de Agosto), de Delbert Mann; 1957: 3:10 to Yuma (O Comboio das 3 e 10), de Delmer Daves; 1958: Cowboy (Cowboy, Como Nasce um Bravo), de Delmer Daves; 1958: The Sheepman (O Irresistível Forasteiro), de George Marshall; 1960: Cimarrón (Cimarron), de Anthony Mann; 1961: Pocketful of Miracles (Milagre por um Dia), de Frank Capra; 1962: The Four Horsemen of the Apocalypse (Os Quatro Cavaleiros do Apocalipso), de Vincente Minnelli; 1962: Experiment in Terror (Uma Voz na Escuridão), de Blake Edwards; 1963: The Courtship of Eddie's Father (As Noivas do Papá), de Vincente Minnelli; 1964: Dear Heart (Uma Vida por Viver), de Delbert Mann; 1966: The Money Trap (A Tentação do Dinheiro), de Burt Kennedy; 1966: Paris Brûle-t-il? (Paris Já Está a Arder?), de René Clément; 1968: Day of the Evil Gun (A Pistola do Mal), de Jerry Thorpe; 1969: Heaven with a Gun (À Mão Armada), de Lee H. Katzin; 1976: Midway (Batalha de Midway), de Jack Smight; 1978: Superman (Super-Homem), de Richard Donner; 1991: Raw Nerve, de David A. Prior; 1991 (último trabalho): Final Verdict (TV).


A LESTE DO PARAISO


A LESTE DO PARAÍSO (1995)

A família e a figura tutelar do pai são dois dos temas mais recorrentes na filmografia (e em toda a obra, escrita e teatral também) de Elia Kazan. “A Leste do Paraíso”, conjuntamente com “Esplendor na Relva”, “América, América” ou “O Compromisso”, é um dos filmes mais sinceros e sentidos como retrato da célula familiar e sobretudo das relações de amor e raiva que se podem estabelecer entre filhos e pais. O próprio Elia Kazan confessa que as suas relações com o seu pai foram conflituosas: o pai era um grego tradicionalista e autoritário, Kazan um jovem rebelde que sonhava com a liberdade, mas que procurava conciliar o amor ao pai com essa necessidade de revolta e de imposição de uma vontade própria.
Segundo um romance de John Steinbeck, “A Leste do Paraíso” é um dos títulos que mais contribuíram para a glória de James Dean e para a consolidação do mito do rebelde. Elia Kazan esmera-se na direcção de actores, utilizando todo o arsenal de elementos fornecidos pelo Actor's Studio, tendo em James Dean uma massa fácil de moldar. O realizador afirma inclusive que ao actor bastou ser ele mesmo, com os seus traumas e obsessões para conseguir um trabalho notável e impor uma personagem inesquecível, na fragilidade e ambiguidade do seu comportamento. A forma como Dean utiliza subtilmente o corpo para sublinhar emoções e estados de espírito, é impressionante. O princípio de que a câmara de filmar deve penetrar no interior dos actores através dos olhos para revelar o seu íntimo mais secreto é aqui exemplarmente confirmado. Os olhos magoados e furtivos de Dean são uma doce fogueira de sentimentos contraditórios, que vão do amor mais intenso à piedade mais sofrida, passando pela raiva e a violência.
“East of End” decorre em Salinas Valley, no estado da Califórnia, no ano de1917, e fala-nos essencialmente da vida de uma família de agricultores, centrando-a, no fundamental, em Cal (James Dean), um dos filhos de Adam Trask (Raymond Massey). O outro é Aron (Richard Davalos), a quem o pai dedica mais atenção e com quem mantém uma relação muito mais próxima. A relação entre Cal e Aron remete para uma outra, muito mais antiga e mitificada pelos tempos: “Caim matou Abel e foi viver para Leste: a leste do Paraíso”.
Será numa evidente toada de alusões bíblicas que Kazan desenvolve a sua obra, atenta aos contornos psicológicos das personagens e ao seu devido enquadramento social e histórico. Estamos em 1917, a América prepara-se para entrar na I Guerra Mundial, o clima é de instabilidade e insegurança. Quando Adam Trash perde toda a sua riqueza num negócio de congelamento de vegetais, Cal procura remediar o mal, criando feijões, cujo preço sobe em flecha depois dos EUA entrarem no conflito. Mas Adam é um puritano empedernido, rege-se por uma conduta moral obsoleta, não compreende os motivos dos outros, sobretudo de Cal, que ele identifica com o Mal e o Pecado, herdados da mãe desaparecida. Cal é o protótipo do protagonista de actos falhados: cada nova tentativa de aproximação do pai é um fracasso, cada gesto de amor e devoção, uma tragédia, o que o leva a gritar: “Não quero mais amor de espécie nenhuma, o amor não dá futuro.”


Vivendo com o pai e o irmão, julgando a mãe morta, Cal descobre, no entanto, que ela vive ainda, surpreendendo-a à frente de um bordel em Monterey. Esta descoberta é uma revelação e igualmente uma confirmação: ele é a personificação do Mal, tal como o fora a mãe, Kate (Jo Van Fleet), que rompera o casamento na procura da liberdade pessoal, sentindo-se asfixiar pelo rigor puritano do marido e a vida isolada do campo. Para fugir de casa tivera mesmo que alvejar o marido. Hoje vive abastadamente na melhor “casa” de Monterey, adormecida em álcool e recusando de início ver os filhos. Mas o seu olhar magoado recorda dores antigas, o que não a impede de orgulhosamente afirmar que “entra na sua “casa” pela porta da frente, enquanto os seus influentes clientes o fazem “clandestinamente pela porta das traseiras”.
Para o melodrama ser ainda mais intenso e o clima emocional de cortar à faca, Aron namora com Abra (Julie Harris), mas desde o início se pressente que esta ama e deseja Cal, não assumindo esse amor por medo. Cal representa a liberdade, Aron o conformismo, Abra verga-se à vontade deste último por comodismo, mas anseia por uma gesto de Cal. Que acontece, durante uma noite numa feira, no alto de uma Roda que precipita o destino. O ciúme adormecido e a rivalidade mantida em segredo explodem. Caim e Abel em luta. Cal obriga o irmão a confrontar-se com a mãe, acabando este por fugir do Paraíso e ir oferecer-se como voluntário para a guerra, rompendo com a namorada, que é a única pessoa capaz de compreender e aceitar Cal conforme este é. “É tremendo não ser amado. Torna as pessoas mesquinhas, horríveis, más.”
Um filme dramático e vigoroso, excelentemente dirigido e interpretado por um grande conjunto de actores, encabeçados por James Dean, mas onde é ainda de justiça referir Jo Van Fleet, Raymond Massey, Julie Harris e Burl Ives (Sam, o Sheriff). Excelente partitura musical de Leonard Rosenman.


A LESTE DO PARAISO
Título original: East of Eden
Realização: Elia Kazan (EUA, 1955); Argumento: Paul Osborn, John Steinbeck, segundo romance deste último; Produção: Elia Kazan; Música: Leonard Rosenman; Fotografia (cor): Ted D. McCord; Montagem: Owen Marks; Direcção artística: James Basevi, Malcolm C. Bert; Decoração: George James Hopkins; Guarda- roupa: Anna Hill Johnstone; Maquilhagem: Gordon Bau; Asistentes de realização: Don Alvarado, Horace Hough; Som: Stanley Jones; Companhia de produção: Warner Bros.; Intérpretes: James Dean (Cal Trask), Julie Harris (Abra), Raymond Massey (Adam Trask), Burl Ives (Sam, o Sheriff), Richard Davalos (Aron Trask), Jo Van Fleet (Kate), Albert Dekker (Will Hamilton), Lois Smith (Anne), Harold Gordon (Gustav Albrecht), Nick Dennis (Rantani), Abdullah Abbas, Rose Allen, José Arias, Barbara Baxley, Joe Brooks, Timothy Carey, Jack Carr, Wheaton Chambers, Lonny Chapman, Edward Clark, Harry Cording, Roger Creed, Ray Dawe, Anna Dewey, Lester Dorr, Darren Dublin, Franklyn Farnum, Al Ferguson, Cliff Fields, Richard Garrick, John George, Leonard George, John Halloran, Jonathan Haze, Ramsay Hill, Earle Hodgins, Charles Anthony Hughes, Carolyn Jones, Effie Laird, Frank Mazzola, Edward McNally, Ken Miller, Tex Mooney, Paul Nichols, William 'Bill' Phillips, Rose Plummer, Pat Priest, Julian Rivero, Mickey Roth, Loretta Rush, Mario Siletti, Hal Taggart, Bette Treadville, Max Wagner, Lillian West, Chalky Williams, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal: Sif; VHS: Warner Bros.; Classificação etária: M/12 anos; Estreia em Portugal: 12 de Maio de 1956.


JAMES DEAN (1931-1955)

James Byron Dean nasceu a 8 de Fevereiro de 1931, em Marion, Indiana, EUA, e faleceu a 30 de Setembro de 1955, em Cholame, Califórnia, EUA, vítima de acidente de viação. Depois de passar grande parte da sua juventude numa quinta dos tios, em Fairmount, Indiana, viajou até Nova Iorque com o sonho de vir a ser actor. Depois de alguns trabalhos sem grande significado, e de uma nomeação de melhor “revelação” em "The Immoralist”, na Broadway, mudou-se para Hollywood, onde de início não teve igualmente muita sorte, pois só conseguiu papéis sem qualquer relevo, em filmes como a obra de Samuel Fuller, “Baionetas Caladas” (1951), onde era um soldado na Guerra da Coreia; a comédia de Dean Martin e Jerry Lewis, “Marujo, o Conquistador” (1952); ou uma aparição irrelevante numa outra comédia com Piper Laurie e Rock Hudson, “Viram a Minha Noiva?” (1952). Mas rapidamente passou a protagonista de três filmes que lhe conferiram o lugar de imortal e de ícone na galeria das mais lendárias estrelas de Hollywood. Na adaptação da obra de John Steinbeck, realizada por Elia Kazan, “A Leste do Paraíso” (1955), na personagem de Jim Stark o rebelde sem causa do mítico filme de Nicholas Ray, “Fúria de Viver” (1955), e finalmente na adaptação de um romance de Edna Ferber, O Gigante (1956), com a assinatura de outro mestre, George Stevens. No dia 30 de Setembro de 1955, ao volante de um Porsche Spyder, colidiu com outro carro numa estrada perto de Cholame, na Califórnia, e teve morte quase instantânea. Duas horas antes tinha sido multado por excesso de velocidade. Tinha 24 anos, milhões de admiradores, e esta trágica ocorrência, acrescida do seu talento e carisma, transformaram-no num mito insubstituível. O funeral foi uma manifestação de pesar sem paralelo. Sepultado no Park Cemetery, Fairmount, Indiana, EUA. Recebeu duas nomeações (póstumas – até hoje únicas!) para Oscar de Melhor Actor, em “A Leste do Paraíso” e “O Gigante”. A sua vida privada foi vasculhada ao pormenor, contando-se várias ligações, umas com actrizes como Pier Angeli (que antes de se suicidar confessou que James Dean tinha sido o seu verdadeiro amor) ou Liz Sheridan, outras com elementos masculinos, sublinhando a sua tendência homossexual. William Bast, seu companheiro, escreveu um livro sobre a sua relação com Dean, "Surviving James Dean". Era um admirador confesso de Marlon Brando, que o acusava de lhe copiar comportamento, etilo de vida, gestos, etc., e uma das suas aspirações era ser escritor (tal como Brando). A sua interpretação de Jim Stark, em “Fúria de Viver” (1955), foi considerada a 43ª melhor de toda a história do cinema, no inquérito da “Première Magazine”, “100 Greatest Performances of All Time” (2006). Antes de falecer, assinara um contrato com a Warner Bros., no valor de 900,000 dólares, contra a participação em nove filmes, entre os quais se alinhavam "The Corn is Green", “Marcado Pelo Ódio” (1956), “Vício de Matar” (1958), “Gun for a Coward” (1957), “This Angry Age” (1958) e “Gata em Telhado de Zinco Quente” (1958). Paul Newman substituiu-o por três vezes. 

SHANE


SHANE (1953)

Shane é o nome. Veio de longe e parte para longe. Não se sabe de onde veio. Não se sabe para onde irá. É uma daquelas personagens míticas de que se fazem muitas obras de arte, seja no cinema ou não. É obviamente o protagonista de um western, território de mitos por excelência.  É um herói de que se desconhece o passado, mas que se pode supor. É um herói que vamos encontrar no Oeste bravio norte-americano, numa terra em profundas transformações. Num vale do Wyoming existe um grande latifundiário, criador de gado, para quem toda a terra é sua e na qual apascentam as suas rezes. Existem pequenos agricultores que se instalam, delimitam território e querem fazer ali a sua casa.
O filme parte de um romance de Jack Schaefer, não será baseado estritamente em factos concretos, mas assenta realmente em acontecimentos históricos. Aquando da “conquista do Oeste”, na segunda metade do século XIX, o governo dos EUA criou o “Homestead Acts”, uma lei que permitia a americanos e emigrantes, maiores de 18 anos, que nunca “tivessem levantado armas conta os EUA”, instalarem-se em determinadas terras públicas e aí criarem raízes.
Acontece que, anteriormente, outros exploradores se teriam instalado já nessas terras, onde os seus gados corriam livremente, e pretendiam que esse facto fosse bastante para as considerarem suas. Diz a História que mais de 270 milhões de acres de terra pública foram distribuídos por cerca de 1.6 milhões de “homesteaders”, precisamente esses “proprietários rurais”. Os barões da terra não gostaram de ver invadidas as (consideradas) suas propriedades e rapidamente os conflitos brotaram com violência tal que a este período, em redor de 1892, se deu o nome de “Johnson County War”.
Existia igualmente um preconceito que considerava menor a criação de outro gado que não fossem vacas e cavalos. Por isso esses novos agricultores eram insultados e chamados de "pig farmers," "sod busters," "squatters" (criadores de porcos, destruidores de terras, invasores) e outros epítetos ainda menos gentis. “Shane” aborda precisamente esta época e este conflito, partindo de um caso concreto, uma família, um terreno, uma casa, local por onde passa Shane, vindo do horizonte, tendo as montanhas Grand Teton como pano de fundo. Aliás as filmagens ocorreram no Jackson Hole, no Wyoming, nas referidas montanhas e ainda no Big Bear Lake, na Floresta Nacional de San Bernardino, no Rancho Iverson e em Chatsworth. Tudo quanto foi rodado em estúdio aconteceu nos estúdios da Paramount em Hollywood, na Califórnia.


Os historiadores contam que o realizador e produtor George Stevens pretendia inicialmente Montgomery Clift para o papel de Shane e William Holden para o de Joe Starrett. Ambos recusaram e acabariam os mesmos por ser confiados a Alan Ladd e Van Heflin, indicados pela Paramount. Para interpretar o papel de Marian também tinha sido pensada inicialmente Katharine Hepburn, mas Jean Arthur acabaria por ser a escolhida, ela que fora uma actriz muito conceituada nas décadas de 30 e 40, mas que há cinco anos não interpretava um filme. “Shane” seria mesmo o seu último trabalho no cinema.
Voltemos ao desconhecido que vem lá do fundo do horizonte e para quem o pequeno Joey chama a atenção do pai. “Deixa-o vir”, responde Starret. Esta cena inicial confere desde logo um tom muito especial ao filme. Com poucas palavras percebe-se da solidão em que se vive, da vigilância quanto a quem vem lá, interroga-se a paisagem, firmam-se os laços familiares, descobre-se a aspereza do dia a dia… Mais tarde, entraremos em contacto com mãe da família, que se descobre através de uma janela, espreitando, e aí também se começará a notar a importância dramática de portas e janelas neste universo de fazendeiros que vivem assediados por latifundiários que vivem ainda numa idade onde a força das armas impõe a justiça. Onde era a justiça. E quando as armas locais não chegavam, ou não se queria sujar as mãos, mandava-se vir de longe um pistoleiro afamado, como Jack Wilson (uma magnífica composição de Jack Palance, a relembrar um pouco um dos irmãos Dalton, mas em sério).


Shane parece conhecer bem Jack Wilson (o reconhecimento é comum), pelo que se pode supor que ambos já se tinham cruzado anteriormente (ou se cruzara a lenda dos dois). Shane dir-se-ia que vinha em busca de paz e do aconchego de uma família de acolhimento, tanto mais que Marian Starret se mostra igualmente hospitaleira e o jovem Joey adopta o desconhecido. Mas a paz é sol de pouca duração, Ryker arregimenta as suas tropas contra os intrusos, e seja o que Deus quiser… Ou o que Shane achar por bem.
Os westerns são terra para muitos conflitos e descrevem o nascimento de uma nação como poucos outros filmes. “Shane” é um clássico, com todos os condimentos para ser eterno: uma bela história, cheia de prolongamentos sociológicos, históricos, humanos, com cenários esplendorosos, uma fotografia admirável, a que as versões blu ray restituem toda a grandeza, uma belíssima banda sonora, com temas que ficaram célebres, da inspiração de Victor Young, e actores magníficos, Alan Ladd, obviamente, inesquecível nesta figura, Jean Arthu, Van Heflin, o pequeno Brandon De Wilde, Jack Palance ou Emile Meyer. “Shane” figura em todas as listas dos melhores westerns de sempre, mas aparecia igualmente em 69º lugar na lista de 1997 dos 100 melhores da AFI, tendo subido para a 45º posição, na revisão de 2007.  George Stevens continua um mestre. Iniciou-se como realizador no início da década de 30, passou pelo musical, “Ritmo Louco”, com Astaire e Rogers, experimentou um pouco de cada género, mas nos anos 40 e 50 foi um dos reis de Hollywood, com obras como “O Assunto do Dia”, “O Seu Grande Mistério”, “Um Lugar ao Sol”, “Renúncia”, “Shane”, “O Gigante” ou “O Diário de Anne Frank”. Um dos últimos filmes foi “A Maior História de Todos os Tempos”. Morreu em 1975.
“Shane” mereceu indicação para vários Oscar, desde o de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento (A.B. Guthrie Jr.), e ainda uma dupla nomeação para Melhor Actor Secundário (Brandon De Wilde e Jack Palance), Venceu o Oscar de Melhor Fotografia para o director Loyal Griggs. Foram variadíssimos os outros prémios e galardões. Clint Eastwood dirigiu uma espécie de remake de “Shane”, chamado “Pale Rider” (Justiceiro Solitário). 


SHANE
Título original: Shane
Realização: George Stevens (EUA, 1953); Argumento: A.B. Guthrie Jr., Jack Sher, segundo romance de Jack Schaefer; Produção: Ivan Moffat,  George Stevens; Música: Victor Young; Fotografia (cor): Loyal Griggs;  Montagem: William Hornbeck, Tom McAdoo;  Direcção artística: Hal Pereira, Walter H. Tyler; Decoração: Emile Kuri;  Guarda-roupa: Edith Head;  Maquilhagem: Wally Westmore; Assistentes de realização: John R. Coonan; Som: Gene Garvin, Harry Lindgren; Efeitos visuais: Farciot Edouart, Gordon Jennings; Companhia de produção: A Paramount Picture; Intérpretes: Alan Ladd (Shane), Jean Arthur (Marian Starrett), Van Heflin (Joe Starrett), Brandon De  (Joey Starrett), Jack Palance (Jack Wilson), Ben Johnson (Chris Calloway), Edgar Buchanan (Fred Lewis), Emile Meyer (Rufus Ryker), Elisha Cook Jr. (Stonewall Torrey), Douglas  (Axel 'Swede' Shipstead), John Dierkes (Morgan Ryker), Ellen Corby (Mrs. Liz Torrey), Paul McVey (Sam Grafton), John  (Will Atkey), Edith Evanson, Leonard Strong, Ray Spiker, Janice Carroll, Martin Mason, Helen Brown, Nancy Kulp, Ewing Miles Brown, Bill Cartledge, William Dyer Jr., Chick Hannan, Alana Ladd, David Ladd, George J. Lewis, Rex Moore, Howard Negley, Charles Quirk, Steve Raines, William Simonds, Kathy Stainbrook, Jack Sterling, George Stevens (voz),  Jo Ann Thompson, Beverly Washburn, Henry Wills, David Wyatt, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal (Blu-ray): Pramount, Madrid; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 1 de Janeiro de 1954.


ALAN LADD (1913 – 1964)

Alan Walbridge Ladd, mais conhecido só por Alan Ladd, nasceu a 3 de Setembro de 1913, em Hot Springs, Arkansas, EUA, e viria a falecer a 29 de janeiro de 1964, com 50 anos, em Palm Springs, Califórnia, EUA. Depois da morte do pai, a mãe mudou-se para Oklahoma City, e depois para North Hollywood, Califórnia. Trabalhou como carpinteiro (com o padrasto) para os estúdios e estudou na escola de actores da Universal Pictures. Como era loiro e baixo, a Universal não o cotratou. Mas a sua voz deu-lhe uma carreira na rádio, aparecendo depois nalguns pequenos papéis de figurante (aparece em “Citizen Kane”, por exemplo). Entretanto, casara com Midge Harrold e tivera um filho, Alan Ladd, Jr., o padrasto morrera e a mãe, vítima de depressão, cometera suicídio. Em 1942, Alan Ladd casa pela segunda vez, agora com a sua agente, a actriz Sue Carol. Foi nesse momento que Carol lhe conseguiu um grande papel, em “This Gun for Hire” (1942), onde trabalhava ao lado de Veronica Lake, uma atriz baixinha como ele (1,57m) e que seria seu par em várias obras. Rapidamente se tornou um actor célebre e um dos mais populares da Paramount Pictures. Interrompeu a carreira para o serviço militar na Força Aérea, mas a popularidade não desceu. “The Blue Dahlia", segundo um romance de Raymond Chandler, é outro sucesso. Em 1953, Ladd interpretaria um dos mais famosos papéis do cinema, o do pistoleiro, em “Shane”. Depois deste auge, a sua carreira declinou, com problemas de alcoolismo e de saúde. Em 1963, iria surgir, já como actor secundário, em “The Carpetbaggers”, seu derradeiro filme. Alan Ladd morreu em Palm Springs, Califórnia, em 1964, vítima de uma overdose de álcool e calmantes, com 50 anos. Foi enterrado em Forest Lawn Memorial Park, Glendale, Califórnia. Deixou uma grande herança e uma família de pessoas ligadas ao cinema: o filho, Alan Ladd, Jr., é um executivo de cinema e fundou a The Ladd Company; a filha Alana é casada com Michael Jackson, um veterano nome da rádio. Outro filho, David Ladd, é actor e ainda chegou a contracenar com o pai, em “The Proud Rebel”. É casado com a actriz Cheryl Ladd. A actriz Jordan Ladd é neta de Alan Ladd.