sexta-feira, 17 de março de 2017

O VAGABUNDO DE MONTPARNASSE


O VAGABUNDO DE MONTPARNASSE (1958)

Amedeo Clemente Modigliani (Livorno, 12 de julho de 1884 — Paris, 24 de janeiro de 1920), italiano por nascimento, de origem judaica, foi um dos mais impressionantes talentos artísticos do início do século XX, uma época muito dada a vanguardas e onde abundaram os escritores, poetas, pintores, músicos, cineastas e todo o género de criadores que transformaram este período num dos mais fecundos da história do mundo. Este domínio obviamente romântico, fértil em suicídios e mortes muito jovens, com artistas “malditos” entregues ao álcool e ao absinto, às drogas  e à boémia, aos grandes amores, correspondidos ou não, mas sempre embriagantes, ao corte radical com os valores da burguesia instalada, aos grandes gestos de ruptura com o capital e o poder instituído, este foi o universo de modernistas e futuristas, surrealistas e expressionistas, cubistas e fauvistas, de construtivistas e revolucionários… todos em busca de utopias e sonhos, enquanto viviam em espeluncas de bairros populares de grandes metrópoles, ou se exilavam em paraísos exóticos.
Modigliani foi um solitário em Paris, para onde se mudou em 1906, depois de estudas pintura em Roma, Veneza e Florença. Doente e enfraquecido desde miúdo, enfrentou pleurisia, tifo e tuberculose, nunca recuperando totalmente dessas maleitas, nem de uma certa dependência materna, que o acompanhou ao longo da vida. O desregulamento da sua existência não o impediu de criar uma fabulosa galeria de obras, com predominância de retratos e nus femininos, retratos de amigos e uma ou outra paisagem, que na época não só não foram devidamente valorizadas pelo público em geral como, num caso ou noutro, foram perseguidas pelas autoridades. Basta relembrar a abertura da sua primeira exposição individual, em 1917, na Gallerie Berthe Weill, que seria encerrada no dia da inauguração por causa de um nu exposto na vitrine.


Conheceu e lidou com muitos artistas do seu tempo que se reuniam em Paris, mas contou com raros amigos. Um deles foi o poeta polaco Leopold Zborowski, que não se cansava de o incentivar. Apaixonado pela mulher, teve nalgumas delas apoio precioso. Caso da escritora inglesa e crítica de arte Beatrice Hastings, da galerista Anna Zborowsky, mas sobretudo da mulher que ele mais amou e que o acompanhou até à morte, a igualmente pintora Jeanne Hébuterne, oriunda de uma família convencional e abastada, que trocou tudo para acompanhar Modigliani, e que se haveria de suicidar, lançando-se do quinto andar de um edifício, grávida de nove meses, no dia a seguir à morte do seu companheiro.
Modigliani morre durante a noite de 24 de Janeiro de 1920, aos 35 anos, vítima de tuberculose, sendo sepultado no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris. Pouco depois de ter desaparecido fisicamente da face da terra, os seus trabalhos adquiriram um valor incalculável, sendo presentemente das obras mais valiosas a transacionar em leilões de arte. Parece que um, ou vários, comerciantes de arte terão lucrado largamente com o funesto desenlace do artista.
Foram aspectos da vida deste pintor que deram origem ao filme “O Vagabundo de Montparnasse” (no original “Les Amants de Montparnasse” ou “Montparnasse 19”), que Jacques Becker dirigiu. Mas o projecto inicial não era seu, mas de Max Ophüls, que antes de iniciar a rodagem faleceu, e que iria contar com o casal Yves Montand e Simone Signoret, nos papéis de Modigliani e Jeanne Hébuterne. Becker surgiu então como alternativa, mas o argumento inicial de Henri Jeanson foi muito alterado, acabando mesmo por não surgir no genérico (aparece somente Jacques Becker, segundo romance de Michel-Georges Michel, "Les Montparnos"), e Gerard Philipe e Anouk Aimée foram os actores finalmente escolhidos. De Ophüls temos uma dedicatória inicial.
Jacques Becker (1906 – 1960) é um dos mais interessantes cineastas franceses anteriores à eclosão da Nouvelle Vague. Desde inícios da década de 40, assinou obras que figuram por direito próprio entre as mais importantes deste período, como “Goupi mains rouges”(1943), “Noivado Sangrento” (1945), “O Tonio e a Toninhas” (1947), “Eduardo e Carolina” (1951), “Aquela Loira” (1952), “O Último Golpe” (1954), este “O Vagabundo de Montparnasse” (1958) e “O Buraco” (1960). “Aquela Loira” “O Último Golpe” e “O Buraco” são unanimemente consideradas obras-primas. “O Vagabundo de Montparnasse”, talvez por não ser um projecto seu de início, não será dos seus títulos mais conseguidos, ainda que ofereça bastantes motivos para ser admirado. O seu estilo está bem patente,  a forma de tratar a mulher igualmente, a direcção de actores é bastante boa, com destaque para Gérard Philipe, um dos mais sensíveis e admiráveis actores desta altura, infelizmente hoje em dia pouco conhecido, porque raramente são vistas obras por si interpretadas. Mas não só Gérard Philipe merece destacado relevo, Anouk Aimée, como Jeanne Hébuterne,  Lilli Palmer, no papel de Beatrice Hastings e Lino Ventura, compondo a figura do manipulador Morel, são outras tantas composições muito interessantes. 
Onde o filme se nos afigura mais discutível é no retrato algo convencional do artista boémio, viciado em álcool e bebidas, apaixonado pelas mulheres, que se isola de tudo e todos para preservar a pureza da sua arte, que não aceita compromissos, que invectiva milionários e comerciantes e que, no final, acaba vítima de um quase suicídio por não se integrar de forma nenhuma na sociedade do seu tempo. Acontece que este retrato é o mais convencional que se possa imaginar, por muito real que tenha sido por essa altura a sorte de muitos artistas com idêntica predestinação. Mas Becker surge-nos muito previsível, de um melodramatismo por vezes exagerado, quando se lhe exigia um outro rigor e uma maior distanciação. Há momentos de um maniqueísmo evidente (a visita de Modigliani a um casal de milionários americanos é um deles), se bem que a descrição da época, os ambientes soturnos e a paixão que se sente entre Modi e Jeanne sejam aspectos a sublinhar pela positiva. Mas parece-nos francamente que a composição de Gérard Philipe merece bem uma revisitação, ou uma descoberta.  



O VAGABUNDO DE MONTPARNASSE
Título original: Les amants de Montparnasse ou Montparnasse 19
Realização: Jacques Becker (França, Itália, 1958); Argumento: Jacques Becker, segundo romance de Michel-Georges Michel ("Les Montparnos"); Produção: Sandro Pallavicini, Henry Deutschmeister; Música: Paul Misraki; Fotografia (p/b): Christian Matras; Montagem: Marguerite Renoir; Design de produção: Jean d'Eaubonne; Guarda-roupa: Georges Annenkov, Jacques Heim; Maquilhagem: Yvonne Fortuna, Denise Lemoigne; Direcção de Produção: Ralph Baum, André Hoss; Assistentes de realização: Jean Becker; Serge Witta; Departamento de arte: Robert Christidès; Som: Pierre-Louis Calvet; Companhias de produção: Franco London Films, Astra Cinematografica, Sandro Pallavicini; Intérpretes: Gérard Philipe (Amedeo Modigliani), Lilli Palmer (Beatrice Hastings), Lea Padovani (Rosalie), Gérard Séty (Léopold Zborowsky), Lino Ventura (Morel), Anouk Aimée (Jeanne Hébuterne), Lila Kedrova (Anna Zborowsky), Arlette Poirier (Lulu), Pâquerette (Madame Salomon), Marianne  (Berthe Weil), Judith Magre, Denise Vernac, Robert Ripa, Jean Lanier, Carole Sands, Jany Clair, Antoine Tudal, Bruno Balp, Jacques Ferrière, Monique Ardoin, Francis Aubert, Stéphane Audran (uma rapariga no terraço), René Berthier, Yori Bertin, Pierre Durou, Frank Edwards, Émile  Genevois, Harry-Max, François Joux, Robert Lepers, Julien Maffre, Jacques Marin, Daniel Mendaille, Paul Mercey, Germaine Michel, François Perrot, Pierre Richard (um estudante de pintura), Véronique Silver, etc. Duração: 108 minutos; Distribuição em Portugal: ZON Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 23 de Janeiro de 1959.

GÉRARD PHILIPE 
(1922 – 1959)
Gérard Philipe nasceu em Cannes, a 4 de Dezembro de 1922, e viria a falecer em Paris, a 25 de Novembro de 1959. Tinha 37 anos e uma carreira absolutamente brilhante, tanto no teatro como no cinema franceses. Foi seguramente dos nomes mais prestigiados do universo do espectáculo europeu durante as décadas de 40 e 50, deixando o seu nome ligado a obras que para sempre celebrarão o seu incomensurável talento e a beleza e elegância do seu perfil.  
Estudou no Conservatório de Arte Dramática, em Paris. Aos 19 anos, estreou-se como ator de teatro em Nice e, no ano seguinte, a sua interpretação na peça “Calígula”, de Albert Camus, leva-o a ser convidado a integrar o elenco do Théâtre National Populaire em Paris e Avinhão, cujo festival, fundado em 1947 por Jean Vilar, é o mais famoso e antigo do país. Sob a direcção de Vilar, teve atuações inesquecíveis interpretando, entre outros, "O Cid", de Corneille, "O Príncipe de Hamburgo", de Kleist, "Lorenzaccio", de Musset, "Ricardo II", de Shakespeare e "Ruy Blas", de Victor Hugo.
No cinema, Gérard Philipe estreia-se em 1943, em “Les Petites du Quai aux Fleurs”, de Marc Allégret. Continuou a carreira em pequenos papéis, até atingir o estrelato com “Le Diable au corps” (1947), de Claude Autant-Lara. Prinicipais filmes: 1947: Le Diable au corps, de Claude Autant-Lara; La Chartreuse de Parme, de Christian-Jaque; 1949: La Beauté du diable, de René Clair; 1950: Juliette ou la Clé des songes, de Marcel Carné; La Ronde, de Max Ophüls; 1951: Fanfan la Tulipe, de Christian-Jaque; 1952: Les Belles de nuit, de René Clair; 1953: Les Orgueilleux, de Yves Allégret; Monsieur Ripois, de René Clément; Si Versailles m'était conté..., de Sacha Guitry; 1954: Le Rouge et le Noir, de Claude Autant-Lara; 1955: Les Grandes Manœuvres, de René Clair; Si Paris nous était conté de Sacha Guitry; 1956: Les Aventures de Till l’Espiègle, de Gérard Philipe et Joris Ivens; 1957: Montparnasse 19 de Jacques Becker; Pot-Bouille, de Julien Duvivier; 1958: Le Joueur, de Claude Autant-Lara; 1959: Les Liaisons dangereuses, 1960 de Roger Vadim; 1959: La fièvre monte à El Pao, de Luis Buñuel.
Senhor de uma magnífica voz, utilizou-a para registrar textos de Marx, Villon, Rimbaud ("Le Bateau ivre"), Éluard ("Liberté") e "O Pequeno Príncipe", de Saint-Exupéry. Em 1951, Gérard Philipe casou-se com a actriz Nicole Fourcade (1917–1990), com quem teve dois filhos.

Reconhecido pelo seu talento, desapareceu, vítima de cancro no fígado, quando atravessava o melhor período da sua carreira. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Ramatuelle, junto à costa do Mar Mediterrâneo.

domingo, 22 de janeiro de 2017

FÚRIA SANGUINÁRIA

FÚRIA SANGUINÁRIA (1949)

A preocupação maior de Cody Jarrett (James Cagney), é não desiludir a mãe, que coloca nele todas as esperanças e ambições. Ele tem de atingir “o topo do mundo”. Esta ambição é característica de muitas sociedades, mas é particularmente lembrada em muitos filmes norte-americanos, o que faz dela uma frase emblemática de um país que, mais do que se preocupar com o sucesso, vive obcecado pela ganância. Querer o “topo do mundo” pode ser uma pretensão legítima quando esse topo é uma perfeição continuada, mas também pode ser a perdição de qualquer um. Cody Jarrett, um gangster que vive do roubo e mostra algum sadismo na forma como assassina friamente quem se lhe cruza no caminho, tem associado a si uma quadrilha que comanda. Acabará por atingir um “top of the world”, é certo, ele próprio o grita, numa das declarações mais célebres de toda a história do cinema, mas o seu topo do mundo vai revelar-se uma vitória trágica e altamente explosiva. "Made it, Ma! Top of the world!" ("Eu consegui, mãe! Estou no topo do mundo!"). Esta frase acaba por encerrar as duas obsessões deste homem atravessado por uma certa loucura, que tinha na mãe e no sucesso as suas aspirações maiores.
“White Heat” é um dos mais significativos filmes de gangsters (e do filme negro) da história do género. Em 2008, o American Film Institute, através de uma sondagem, indicou aqueles que foram considerados os dez melhores filmes em cada género clássico e “White Heat” ficou num muito honroso quarto lugar (1). A citação "Made it, Ma! Top of the world!" ficou classificada em décimo oitavo lugar num total de 100 melhores citações na lista organizada pela mesma instituição (2).
Segundo alguns estudiosos, a personagem de Cody Jarrett pode ter sido inspirada em Francis Crowley, um assassino de Nova Iorque que lutou com a polícia na primavera de 1931, apenas com dezanove anos de idade. Executado em 21 de Janeiro de 1932, as suas últimas palavras foram: "Envio o meu amor para a minha mãe ("Send my love to my mother."). Outra inspiração pode ter sido Arthur Barker, um gangster dos anos de 1930, filho da celebérrima Ma Barker. Também o assalto ao comboio que surge no início do filme se julga baseado no roubo do Southern Pacific's "Gold Special", perpetrado pelos irmãos D'Autremont, em 1923. Sejam ou não autênticas estas influências, a verdade é que a sinceridade e a autenticidade de personagens e situações deste filme de Raoul Walsh são evidentes e uma das características que tornam a obra um marco decisivo, não só no género “filme de gangsters” ou do “filme negro”, como em toda a história do cinema.


O argumento de Ivan Goff e Ben Roberts, partindo de uma história de Virginia Kellogg é magnífico, inteligente, adulto, jogando habilmente com elementos da psicanálise que por essa altura andava tanto pelos ares de Hollywood (“Fúria Sanguinária” foi nomeado para o Oscar de Melhor Argumento.). As relações de Cody Jarrett com a mãe, com as mulheres, com os membros do gang, a sua obsessão com o triunfo, a relação com as armas e o poder que elas transmitem, tudo isso é dado de forma subtil, mas eficaz. Os confrontos constantes do nevrótico Cody Jarrett com Verna Jarrett, sua mulher (Virginia Mayo), com o pérfido Big Ed Somers (Steve Cochran), com o traiçoeiro Hank Fallon (Edmond O'Brien), só encontram lenitivo na estranha e obviamente patológica aproximação da mãe Jarrett (Margaret Wycherly). Mesmo quando sente alguma simpatia por um dos membros do seu gang, este revela-se afinal um infiltrado. Cody Jarrett nunca deixa de ser um solitário, um acossado, um desintegrado, herdando do pai uma loucura que o perturba dramaticamente com dores de cabeça. 
  
    
A interpretação de James Cagney, num dos mais conseguidos trabalhos da sua vasta carreira (há quem assegure que é a sua melhor criação de sempre!), é simplesmente genial, oscilando entre o nervosismo e o patológico, entre a violência e uma certa forma de ternura, sempre numa zona que ronda a loucura e por vezes nela se abate.
Muito curiosa é a dúbia relação de Coddy com a possessiva mãe, em oposição à relação que estabelece com Verna, a mulher que, como quase sempre entre os gangsters, é exibida como trofeu de caça e símbolo do poder (logo, quando Cody é preso ela transita para Big Ed Somers, que assume a chefia do gang e conquista a mulher). Este é um dos elementos mais interessantes da iconografia do “filme negro”: a mulher como “femme fatal” que manipula e é manipulada, que funciona como elemento decorativo e erótico para simples desfrute, que vive obcecada pelo dinheiro e que evolui ao sabor do dinheiro, do poder. 
Outro elemento a sublinhar é o lado quase documental como por vezes o filme se apresenta, testemunhando aspectos da actividade da polícia, como uma perseguição acompanhada num mapa, no interior de um gabinete, onde se vão cruzando informações.
A fotografia de Sidney Hickox é igualmente um elemento a referir, num preto e branco que serve notavelmente o tom e o estilo da obra, bem assim como a partitura musical de Max Steiner. Raoul Walsh, um cineasta que como poucos dominava o filme de acção e violência, tanto física como psicológica, tem também aqui um dos seus pontos altos. O “filme de gangsters” e o “filme negro” (aqui com limites que se interpenetram) sempre foi uma área onde se movimentou com segurança, demonstrando um talento invulgar para dominar os conflitos, deixar explodir a violência, mas controlando os seus efeitos de forma rigorosa, criando personagens com uma rara densidade psicológica e física, criminosos tocados pela redenção e agentes da lei por vezes corruptos, impondo um universo de uma complexidade emocional difícil de igualar. Títulos como “Heróis Esquecidos”, “Vidas Nocturnas”, “O Último Refúgio”,Discórdia”, “Sem Consciência” (que surge assinado por Bretaigne Windust) e este “Fúria Sanguinária” mostram bem o génio de Walsh, descontando inúmeras outras obras no campo do western, do filme de guerra e mesmo no domínio da comédia.

(1) A lista dos 10 mais ficou assim estabelecida: 1. The Godfather; 2. Goodfellas; 3. The Godfather Part Ii; 4. White Heat; 5. Bonnie And Clyde; 6. Scarface: The Shame Of A Nation; 7. Pulp Fiction; 8. The Public Enemy; 9. Little Caesar; 10. Scarface.

(2) As 20 frases mais célebres de toda a história do cinema, segundo o inquérito do American Film Institute são: 1. “Frankly, my dear, I don't give a damn”. (Gone With the Wind, 1939); 2. “I'm gonna make him an offer he can't refuse”. (The Godfather, 1972); 3. “You don't understand! I coulda had class. I coulda been a contender. I could've been somebody, instead of a bum, which is what I am”. (On the Waterfront), 1954); 4. “Toto, I've a feeling we're not in Kansas anymore”. (The Wizard of Oz, 1939), 5. “Here's looking at you, kid”. (Casablanca, 1942); 6. “Go ahead, make my day”. (Sudden Impact, 1983); 7. “All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up”. (Sunset Blvd., 1950); 8. “May the Force be with you”. (Star Wars, 1977); 9. “Fasten your seatbelts. It's going to be a bumpy night”. (All About Eve, 1950); 10. “You talking to me?” (Taxi Driver, 1976); 11. “What we've got here is failure to communicate”. (Cool Hand Luke, 1967); 12. “I love the smell of napalm in the morning”. (Apocalypse Now, 1979), 13. “Love means never having to say you're sorry”. (Love Story, 1970); 14. “The stuff that dreams are made of”. (The Maltese Falcon, 1941); 15. “E.T. phone home”. (E.T. the Extra-Terrestrial, 1982); 16. “They call me Mister Tibbs!” (In the Heat of The Night, 1967); 17. “Rosebud”. (Citizen Kane, 1941); 18. “Made it, Ma! Top of the world!”  (White Heat, 1949); 19. “I'm as mad as hell, and I'm not going to take this anymore!” (Network, 1976); 20. “Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship”. (Casablanca, 1942).


FÚRIA SANGUINÁRIA
Título original: White Heat
Realização: Raoul Walsh (EUA, 1949); Argumento: Ivan Goff, Ben Roberts, segundo história de Virginia Kellogg; Produção: Louis F. Edelman; Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Sidney Hickox; Montagem: Owen Marks; Direcção artística: Edward Carrere; Decoração: Fred M. MacLean; Maquilhagem: Perc Westmore, Edwin Allen, Gertrude Wheeler; Assistentes de realização: Russell Saunders; Som: Leslie G. Hewitt; Efeitos especiais: Roy Davidson, Hans F. Koenekamp; Companhia de produção: A Warner Bros.-First National Picture; Intérpretes: James Cagney (Cody Jarrett), Virginia Mayo (Verna Jarrett), Edmond O'Brien (Hank Fallon / Vic Pardo), Margaret Wycherly (Ma Jarrett), Steve Cochran (Big Ed Somers), John Archer (Philip Evans), Wally Cassell (Cotton Valletti), Fred Clark (Trader Winston), Joel Allen, Claudia Barrett, Ray Bennett, Marshall Bradford, Chet Brandenburg, John Butler, Robert Carson, Bill Cartledge, Bill Clark, Leo Cleary, Fred Coby, Tom Coleman, G. Pat Collins, Bing Conley, Garrett Craig, Herschel Daugherty, Fern Eggen, Charles Ferguson, Art Foster, Eddie Foster, Robert Foulk, Paul Guilfoyle, Perry Ivins, Mickey Knox, Harry Lauter, DeForrest Lawrence, Nolan Leary, Murray Leonard, Ian MacDonald, John McGuire, Sid Melton, Ray  Montgomery, Mike Morelli, Robert Osterloh, Milton Parsons, Ford Rainey, Grandon Rhodes, George Spaulding, George Taylor, Ralph Volkie, Jack Worth, etc. Duração: 114 minutos; Distribuição em Portugal: Warner Bros; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 9 de Novembro de 1950.

JAMES CAGNEY (1899–1986)
James Francis Cagney nasceu a 7 de Julho de 1899, em Nova Iorque, EUA, e faleceu a 30 de Maio de 1986, com 86 anos, em Stanfordville, Nova Iorque, EUA. Foi um dos grandes actores de Hollywood no seu período de ouro, sobretudo na sua componente de sedutor “duro”, ao lado de Humphrey Bogart, Edward G. Robinson ou George Raft, disputando os favores do público ao lado de “monstros sagrados” como Clark Gable, Gary Cooper ou Spencer Tracy. Começa a carreira no teatro, em 1919, vestido de mulher, no musical “Every Sailor”. Trabalha durante alguns anos nos palcos americanos, até ser particularmente notado como protagonista de “Penny Arcade”, uma peça de 1929. A Warner Bros. contrata-o para o seu estúdio, onde se torna rapidamente numa das vedetas preferidas, sobretudo depois do seu enorme sucesso em “The Public Enemy”, um dos mais influentes filmes de gangsters deste período. Em 1938, recebe uma nomeação para o Oscar de Melhor Actor, em “Angels with Dirty Faces”, e em 1942 ganha o Oscar pela sua magnífica interpretação de George M. Cohan em “Yankee Doodle Dandy”. Casado com a bailarina Frances Willard "Billie" Vernon (1922–1986). Em 1999, o “American Film Institute” coloca-os entre os 50 maiores mitos do cinema americano. Era um dos actores favoritos de Stanley Kubrick e Orson Welles considerava-o “provavelmente o melhor actor de sempre frente a uma câmara”.


Filmografia (principais filmes): 1930: Sinners' Holiday, de J. G. Adolfi (estreia no cinema); 1935: G Men (O Império do Crime), de William Keighley; 1936: Ceiling Zero (Entre Nuvens), de Howard Hawks; 1938: Angels with Dirty Faces (Anjos de Cara Negra), de Michael Curtiz; 1939: The Roaring Twenties (Heróis Esquecidos), de Raoul Walsh; 1940: City for Conquest (A Conquista da Cidade), de Anatole Litvak; Torrid Zone (Zona Tórrida), de William Keighley; The Fighting 69th, de William Keighley; 1941: The Strawberry Blonde (Uma Loira com Açúcar), de Raoul Walsh; 1942: Yankee Doodle Dandy (Canção Triunfal), de Michael Curtiz; Captains of the Clouds (Corsários das Nuvens), de Michael Curtiz; 1943: Johnny Come Lately (Revolta na Cidade), de W. K. Howard; 1947: 13 Rue Madeleine (O 13 Não Responde), de Henry Hathaway; 1949: White Heat (Fúria Sanguinária), de Raoul Walsh; 1951: Come Fill the Cup (Nas Garras do Vício), de Gordon Douglas; 1952: What Price Glory? (O Preço da Glória), de John Ford; 1953: A Lion Is in the Streets (A Fera), de Raul Walsh; 1955: Mister Roberts, de John Ford e Merlyn Le Roy ; Love Me or Leave Me (Ama-me ou Esquece-me), de Charles Vidor; Run for Cover (O Fugitivo), de Nicholas Ray; 1956: Tribute to a Bad Man (Honra a Um Homem Mau), de Robert Wise; 1957: Short-Cut to Hell, de James Cagney; Man of a Thousand Faces (O Homem das Mil Caras), de Joseoh Pevney; 1959: Shake Hands with the Devil (Mãos Dadas com o Diabo), de Michael Anderson; Never Steal Anything Small (O Herói do Bairro), de Charles Lederer; 1961: One, Two, Three (Um, Dois, Três), de Billy Wilder; 1981: Ragtime (Ragtime), de Milos Forman (último filme). 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

MACBETH


MACBETH (1947)

Depois dos atrasos na conclusão de “A Dama de Xangai”, Orson Welles volta a ganhar a reputação de não conseguir completar um filme dentro do prazo e orçamento. Respondendo a estas críticas, Welles propõe dirigir uma versão da peça de William Shakespeare, “Macbeth”, em apenas 21 dias de filmagens (ao contrário da habitual média de seis semanas). “Macbeth” cumpre prazos, mas a estranheza dos cenários criados não conquista grande entusiasmo na crítica nem no público. Insatisfeito, Welles parte para a Europa onde permanece exilado por um período de dez anos, até voltar a ser novamente convidado para trabalhar em Hollywood (“A Sede do Mal”).
“Macbeth” é um dos mais notáveis estudos da condição humana, observada sob o prisma da cobiça e da tentação do poder. Nos labirintos da intriga palaciana e da conspiração, Shakespeare desenha figuras que permanecem como símbolos de comportamentos humanos toldados pelos vícios mais despóticos. A febre de poder que conduz Lady Macbeth e Macbeth mantém-se de uma modernidade e exemplaridade notáveis.
Macbeth (Orson Welles) é um cavaleiro escocês que, vitorioso de mais uma campanha, regressa ao seu castelo na companhia de Banquo (Edgar Barrier), e encontra pelo caminho três bruxas que lhe auguram um futuro, segundo o qual ele virá a ser um dia Rei. Ao tomar conhecimento da profecia, Lady Macbeth (Jeanette Nolan), convence-se que esta será realizada, apesar do rei Duncan (Erskine Sanford) e do seu filho Malcolm (Roddy McDowall), ainda se encontrarem vivos.


Ao receber Duncan no seu castelo, Lady Macbeth planeia um hediondo crime e incita o seu marido a matar o Rei pondo as culpas nos guardas. Embora hesitante, Macbeth acaba por fazer a vontade da mulher. Incriminando os guardas com vestígios de sangue do Rei, Macbeth mata-os, sob o disfarce de uma falsa raiva contra os culpados.
Macduff (Dan O’Herlihy) ao descobrir que o Rei foi assassinado, suspeita de Macbeth - especialmente quando este reclama a coroa - e decide juntar-se a Malcolm em Inglaterra, para prepararem um contra-ataque. Entretanto, Macbeth toma conhecimento de que Macduff e Malcolm reúnem esforços para avançar sobre a Escócia. As bruxas previnem-no para ter cuidado com Macduff, mas sossegam-no ao dizer que Macbeth só será vencido quando “a floresta de Birnam avançar sobre o seu castelo”. Macbeth ordena a morte da mulher e filho de Macduff (Peggy Webber e Cristopher Welles), e prepara-se em seguida para a batalha.            
Lady Macbeth, entretanto, enlouquece e acaba por se suicidar. Os exércitos de Malcolm e Macduff avançam em direcção ao castelo, e ao aproximarem-se, disfarçam-se com ramos das árvores da floresta de Birgman e avançam protegidos pelo nevoeiro. Cumpre-se assim a profecia e Macbeth depara-se com “a floresta de Birnam a avançar sobre o seu castelo”.
A proposta de Orson Welles para realizar “Macbeth” não foi recebida com muito entusiasmo pelos grandes produtores. Vários estúdios temiam pela reputação de Welles - famoso pelos seus atrasos, além de que Shakespeare estava longe de ser um êxito comercial como obra adaptada ao cinema. As tentativas anteriormente conhecidas de trazer Shakespeare para o cinema tinham sido mal sucedidas em termos de audiências.
“Macbeth” tinha ainda o estatuto lendário de ser uma peça maldita, que trazia azar, tendo sido apenas filmada em cinema, em 1916, por Sir Herbert Beerbohm Tree. Orson Welles, apesar de tudo, não via nenhum preconceito em preparar a sua versão da peça. Esta tinha sido o primeiro grande sucesso da sua companhia, o Mercury Theater, numa celebrada e original versão “Voodoo” de Macbeth, em 1936.


Orson Welles chegou finalmente a acordo com a Republic Pictures para financiar o projecto e pôs mãos à obra desenhando e construindo - juntamente com Dan O’Herlihy (o actor que faz de Macduff) – um grande número de invulgares cenários, obtidos por um preço muito módico. Os actores seleccionados foram recrutados do grupo do Mercury Theater – que se encontrava justamente a encenar a peça – o que significou uma importante poupança de tempo nos ensaios. O papel de Lady Macbeth foi inicialmente pensado para ser representado por Agnes Moorehead, mas dada a indisponibilidade desta, ficou para Jeanette Nolan – a actriz que fazia o papel na altura, no Mercury Theater. Aparece também neste filme, a representar o único papel da sua vida, Cristopher Welles, a filha do primeiro casamento de Welles com Virginia Nicholson. Outro papel curioso, foi o dado ao argumentista, Charles Lederer, casado na altura com Virginia Nicholson, que representou uma das três bruxas.
Apesar do presidente da Republic Pictures, Herbert Yates, ter ficado satisfeito com o trabalho de Welles, a crítica não foi muito positiva, queixando-se muito da má qualidade do som, assim como do estilo visual escolhido. 
Welles rodou grande parte do filme utilizando uma atmosfera enevoada – em parte para esconder a pobre qualidade dos cenários, mas também para dar um forte tom teatral ao filme. Outra opção de Welles fortemente criticada foi a de ter posto os actores a representarem os seus papéis com uma forte pronuncia escocesa, obrigando a que o filme fosse cortado e a que algumas partes tivessem de ser dobradas (muitas por Welles). O filme original tem cerca de 107 minutos e está recuperado. A versão cortada e dobrada tem cerca de 89 minutos.


MACBETH
Título original: Macbeth
Realização: Orson Welles  (EUA, 1947); Argumento: Orson Welles (não creditado)  segundo uma peça de William Shakespeare; Música: Jacques Ibert; Fotografia (preto e branco): John L. Russel, William Bradford (segunda unidade); Montagem:  Louis  Lindsay; Direcção Artística: Fred A. Ritter;  Cenários: John Mccarthy Jr, James Redd; Guarda Roupa: Adele Palmer; Maquilhagem: Peggy Gray, Bob Mark; Som: Garry A. Harris, John Stransky Jr.; Efeitos Especiais: Howard Lydecker, Theodore Lydecker; Produtor Executivo: Charles K. Feldman; Produtor Associado: Richard Wilson; Produção: Orson Welles; Produtoras: Mercury Productions, Republic Pictures Corporation, Literary Classics Productions; Intérpretes: Orson Welles (Macbeth), Jeanette Nolan (Lady Macbeth), Dan O’Herlihy(Macduff), Roddy McDowall (Malcolm), Edgar Barrier(Banquo), Alan Napier (Espirito Santo), Erskine Sanford (Duncan), John Dierkes (Ross), Keene Curtis (Lennox), Peggy Webber (Lady Macduff/Bruxa), Lionel Braham (Siward), Archie Heugly (Jovem Siward), Jerry Farber (Fleance), Christopher Welles (filho de Macduff), Morgan Farley (Doutor), Lurene Tuttle (Mulher/Bruxa), Brainer Duffield(Primeiro assassino/Bruxa)),  William Alland (Segundo Assassino), George Chirello (Seyton), Gus Scilling (Um Carregador); Rodagem: estúdios da Republic (23 dias no verão de 1947 depois de 4 meses de ensaios); Duração: versão original – 107 min.; versão cortada por Welles - 89 min.; Estreia: 7 de Outubro de 1948; Distribução internacional: Republic Pictures Corp; Distribuição em Portugal: Filmes Castello Lopes (Portugal). Edição DVD: Costa do Castelo; Classificação etária: M / 12 anos.

ORSON WELLES (1915 - 1985)
Orson Welles nasceu em Kenosha, Wisconsin, E.U.A., a 6 de Maio de 1915. Apaixona-se muito cedo por Shakespeare e aos 5 anos de idade, diz a lenda, já conhece de cor excertos de algumas das suas peças, que encena com marionetes num pequeno teatrinho que lhe ofereceu o seu tutor, Dr. Bernstein (nome que curiosamente aparece, atribuído a outro tutor, em “O Mundo a Seus Pés”). Entre os oito e os dez anos, estuda tragédia, aprende desenho e exercita-se no ilusionismo (fala-se num encontro com Houdini). Aos doze anos funda, no colégio, um grupo teatral e pratica todos os desportos possíveis. Aos quinze, faz uma condensação das oito peças históricas de Shakespeare e recebe um prémio da Associação Dramática de Chicago por uma encenação de "Júlio César". Com 1,80 m de altura, aparece a fumar respeitáveis charutos e usa já monumentais chapéus. Aos dezasseis anos, apresenta-se na Irlanda como um dos "maiores actores americanos" e desempenha o papel do duque Alexandre de Wurttemberg (que tem a provecta idade de 80 anos) em "O Judeu Suss" e o do “Espectro” no "Hamlet".  Aos dezoito anos volta aos E.U.A., onde se lança na edição e ilustração das obras completas de Shakespeare; escreve uma biografia do herói abolicionista John Browne e parte para Marrocos e Espanha, onde se inicia na arte da tauromaquia. Aos dezanove anos, vemo-lo de novo na América, trabalhando como actor em "Romeu e Julieta" e como encenador em "As Três Irmãs", de Tchekov, e outras peças; casa-se então com a actriz Virgínia Nicholson, que lhe dá uma filha, baptizada com o nome masculino de Christofer. Em 1935-36, com a crise do teatro, inicia-se na rádio com a emissão quotidiana "March of Time", actualidades dramatizadas, onde empresta a voz a personalidades diversas, como Hitler, Mussolini ou Negus. Aos vinte e dois anos, graças ao apoio da administração Roosevelt, funda com John Houseman, o "Federal Theatre", onde encena um "Macbeth" inteiramente interpretado por negros. No ano seguinte, desaparecido o "Federal Theatre", funda o "Mercury Theatre", e continua, por outro lado a trabalhar na rádio, com uma emissão, “The Mercury Theatre on the Air”, na CBS, onde, a 30 de Outubro de 1938, adaptando "A Guerra dos Mundos", de Herbert-George Welles, fantasia uma reportagem da invasão do planeta Terra pelos marcianos, cujo realismo provoca um pânico indescritível na América. Mais tarde, adaptará dezenas de peças à rádio no programa “The Campbell Playhouse”, ainda na CBS.
Em 1939, com a desaparição do "Mercury Theatre", cede às solicitações de Hollywood e assina com a R.K.O. um contrato mirabolante: um filme por ano, de que poderia ser, conforme desejasse, produtor, realizador, argumentista, intérprete... ou tudo ao mesmo tempo. E ainda 25 por cento dos lucros brutos e 150 mil dólares para começar!  Depois surgem as tentativas malogradas de adaptar "Heart of Darkness", de Joseph Conrad, e "The Smiler With a Knife", segundo Nicholas Blake, que não leva por diante.
Entre 30 de Julho e 23 de Outubro de 1940, Orson Welles roda “Citizen Kane”, depois de ter passado um mês fechado numa sala de cinema, vendo e revendo obras de John Ford.  Depois, durante nove meses, com semanas de seis dias de trabalho, Welles monta este seu primeiro trabalho de realização. Tem 25 anos. A 1 de Maio de 1941, o filme é estreado e acolhido pela crítica de forma invulgarmente entusiástica. Mas o público não adere a esta obra que se mostra profundamente revolucionária para o seu tempo. Welles dinamitara as regras, estilhaçara a ideia clássica do cinema e, do alto da sua orgulhosa figura, contemplava o campo de batalha e os destroços que vogavam ainda ao sabor da tormenta. 
“Citizen Kane” não teve apenas o desfavor do público. Antes ainda de ser estreado, tivera já grandes dificuldades para ser exibido, porquanto descobriram na obra grandes afinidades entre a figura de Charles Foster Kane e a do magnate americano William Randolph Hearts, que controlava uma vasta cadeia de jornais ao longo de toda a terra americana, e que por todos os meios ao seu alcance tentou impedir a sua estreia.
Entretanto, continua a dedicar-se ao teatro e interessa-se pela ópera. Em 1942, ante a recusa da R.K.O. de o deixar produzir uma adaptação de "As Aventuras de Pickwick", realiza “O 4º. Mandamento” (The Magnificent Ambersons)", recebido ainda mais friamente do que “Citizen Kane”, depois do que parte para a América do Sul, onde impressiona 30.000 m de película, com vista a uma triologia sobre a Argentina, o Brasil e o México, que não chegam a ir nunca à sala de montagem. Só muito recentemente se recuperou parte desse material, que agora se pode ver sob a designação de “It's All True”. Sempre de mal a pior com a R.K.O., intervém ainda em “Jornada do Medo” (Journey into Fear), onde, contudo, figurará  como realizador Norman Foster. Em 1943, divorciado já, volta a casar-se (desta feita com Rita Hayworth), e dedica-se a espectáculos de "music-hall" e de magia para os soldados.  Em 1946, depois de interpretar vários filmes, volta à realização com “O Estrangeiro” (The Stranger), para em 1947, sob a pressão de dificuldades económicas, realizar “A Dama de Xangai” (The Lady from Shangai). Após este filme, rompe definitivamente com os grandes produtores de Hollywood, para realizar, em Inglaterra, com pouquíssimos recursos e em tempo mínimo, o seu primeiro filme shakespeariano: “Macbeth”. A este segue-se, em 1952, “Othelo”, rodado em Itália e no Norte de África, que conquista o Grande Prémio de Cannes. Em 1953 publica um romance satírico, “V.I.P”., cria o bailado "The Lady in the Ice", para Roland Petit, e intervém como intérprete em diversas películas. Logo depois, publica novo romance, “Mr. Arkadin”, que adapta ao cinema sob o nome de “Relatório Confidencial” (Confidential Report, 1954) e casa, pela terceira vez, desta feita com Paola Mori, condessa de Cifagio, e intérprete de “Mr. Arcadin”. 1956 marca o regresso a Hollywood, onde realiza o seu último filme para a Meca do Cinema: “A Sede do Mal” (Touch of Evil).  Em 1957, ainda um filme, mas desta vez, para a televisão: Don Quijote - segundo alguns, não a mais importante, mas uma das mais wellesianas de todas as suas obras, de que se conhece apenas uma versão montada por Jesus Franco, para a Expo 92 de Sevilha.
Em 1962, realiza na Europa (França e Jugoslávia) “O Processo”, uma adaptação de Frank Kafka. Em 1966, segundo diversas obras de William Shakespeare, dirige “Falstaff” (As Badaladas da Meia Noite), a que se segue, em 1969 “História Imortal” (The Immortal Story), um filme misterioso e poético, que tem (supostamente) Macau como cenário (foi rodado em Espanha). As suas derradeiras obras no cinema são “F for Fake”, sobre falsários de arte, e “Filming Othelo”, onde explica a conturbada rodagem do seu admirável “Othelo”.
Ao longo da sua carreira, interpretou dezenas de filmes, onde deixou igualmente o peso da sua personalidade e a força do seu génio, mas muitos deles não tinham grande qualidade nem o mereciam. Fazia-o para conseguir viver e financiar os seus projectos mais pessoais. Morreu a 9 de Outubro de 1985, deixando atrás de si uma lenda imorredoura, um legado disperso, incompleto e por vezes contraditório, que o apontam como um dos verdadeiros génios que o cinema conheceu.


O ARREPENDIDO


O ARREPENDIDO (1947)

Jacques Tourneur: “A morte do amigo de Mitchum, em ”Out of the Past”, assume todo o seu sentido por causa da lâmpada que eu lá tinha colocado. E isto muda a representação dos actores: no momento de filmar exijo que se iluminem apenas as fontes naturais. Os actores ensaiaram sempre num estúdio ou no “plateau”, onde não houve qualquer efeito de luz. Quando digo “acção”, agirão diversamente por causa da luz, sobretudo se não estiverem preparados: assim, uma mulher jovem aproxima-se dum candeeiro de petróleo ou duma janela para ler uma carta, o que nunca terá feito antes, um actor baixará inconscientemente a voz. Isso permite-me dar uma grande liberdade aos actores, pelo menos na aparência, e de os levar por si próprios a fazerem certas coisas que fogem à rotina. Mas tudo vem naturalmente. Não preciso de forçar a minha técnica para criar uma atmosfera visual.”
“Reparou que nunca uso objectivas inusitadas, que detesto os enquadramentos demasiado rebuscados? É verdade. Procuro, antes de tudo o mais, uma unidade visual que seja muito forte, utilizando planos, movimentos de câmara muito simples. Tudo deve vir do interior. Isto não pode ser superficial. Detesto os ângulos esquisitos, as objectivas deformantes. É muito fácil criar uma atmosfera estranha desse modo. Enquanto que ficar muito perto dos actores, nunca usar truques e, no entanto criar essa atmosfera, isso sim, é muito difícil. É preciso pintar com a luz e devo dizer que a cultura pictórica que recebi na minha infância me ajudou muito.”


“Detesto os directores de fotografia que iluminam de tal maneira que os actores não têm liberdade. Era preciso lutar contra esta tendência em Hollywood, sobretudo no filme a cores. Creio que se podem obter os mesmos resultados com a cor que com o preto e branco, mas fica-se muitas vezes prisioneiro de preconceitos e de noções falsas. Deve-se utilizar a cor como o preto e branco. Foi o que tentei fazer em “Way of Gaúcho” ou “Wichita”, usando o mesmo princípio quanto ao modo de iluminar uma cena.”
 “Out of the Past” é um dos grandes filmes de Jacques Tourneur, uma verdadeira obra-prima do “filme negro” dos anos 40. Partindo de um romance de Daniel Mainwaring, que surge com o pseudónimo de Geoffrey Homes, e que no original se chamava “Build My Callows High”, este filme é um autêntico poema trágico, que a fotografia de Nicholas Musuraca serve de forma admirável. Mais recentemente, Taylor Hackford fez um “remake” desta obra, a que deu o título de “Against All Odds” (Vidas em Jogo), com Jeff Bridges, James Woods e Raquel Ward nos papéis anteriomente vividos por Robert Mitchum, Kirk Douglas e Jane Greer (que surge no filme de Hackford no papel de mãe de Raquel Ward). Mas esta revisão de um clássico é perfeitamente desalentadora e frustrante, perdido que é todo o fascínio da obra original.
Tudo principia numa pequena cidade da Califórnia, Bridgeport, onde Jeff Bailey (Robert Mitchum), dono de uma gasolineira, se encontra com Ann, a mulher com quem pretende casar. Mas Joe Stefanos informa-o que With Sterling (Kirk Douglas), um milionário que terá feito fortuna de formas muito suspeitas, certamente cruzando-se com o submundo do crime, o mandara chamar. Enquanto ambos se dirigem para a mansão de Sterling, em Lake Tohe, Jeff vai contando à mulher a sua vida passada. Como detective privado fora contratado, anos atrás, para encontrar a amante de Sterling, Kathie Moffett (Jane Greer) que o tinha abandonado, depois de o ter atingido a tiro, e de lhe ter roubado 40.000 dólares. Jeff encontrou Kathie no México, mas apaixonou-se por ela e acreditou na sua versão dos acontecimentos, que a ilibavam de qualquer roubo. Mudaram-se para S. Francisco, onde viveram anonimamente até serem descobertos por Fisher, um antigo sócio de Jeff. Entre várias peripécias, Jeff descobre que Kathie matara Fisher e fora realmente responsável pelo roubo de que Sterling a acusara. Desiludido, muda-se para Bridgeport. Aqui, o “fIash back” termina e  regressa-se ao tempo presente. Antes de entrar em casa de Sterling, Jeff assegura a Ann que já não ama Kathie. Mas todas as suas certezas vacilam quando a descobre, lado a lado com Sterling. Ambos o tentam aliciar para o seu lado, procurando usá-Io como isco, incriminando-o num crime que não cometera. O precipitar dos acontecimentos leva à destruição de todos, procurando Ann reter de Jeff uma recordação que o assistente deste destrói, para que ela possa libertar-se do passado e regressar à vida.


Este é, sem grandes motivos para dúvidas, um dos mais belos e trágicos filmes de toda a história do “thriller” americano. Tudo se processa com uma neutralidade de tom que faz desta sucessão de mortes e traições acontecimentos anódinos, de uma monstruosa normalidade. Há como que uma inter-penetração do universo do filme fantástico com as regras e as convenções do “thriller”, o que confere a esta obra um estranho e fascinante clima. Mais uma vez a iluminação, e o jogo dos actores interfere de forma decisiva para o resultado final. Quando Kathie entra num bar de Acapulco, Jeff declara, em off, que ela “entrou vinda do luar” e este tom maravilhoso impregna todo o filme, que oscila entre um certo onirismo e um clima de tragédia suspensa, por entre bares e álcool, fumo e jogo, calor e desejo. De resto, os diálogos são brilhantes, num verdadeiro jogo de ping pong entre os protagonistas, farses cortantes, irónicas, cinicas, apaixonadas.
Curiosamente, Tourneur não fala deste filme como um dos seus preferidos, apesar de hoje em dia ser um dos mais inequívocos “cult movie” da história do “filme negro”. Mas é com simpatia que recorda a rodagem: “Fiquei muito contente por rever este filme, que, na minha opinião, se aguenta muito bem. O argumento de Mainwaring e o diálogo eram de primeira ordem e pude rodar a maior parte do filme em exteriores. Na verdade, a aldeia que se vê é aquela onde vou para pescar trutas. Conhecia toda a gente e sabia exactamente o que se devia utilizar das paisagens. Servi-me dos verdadeiros habitantes para pequenos papéis e, como estava longe do estúdio, pude sair da rotina: por exemplo, evitei as transparências na cena de abertura, em que o carro do homem de mão de Kirk Douglas se aproxima da bomba de gasolina. E fui eu que sugeri a Mainwaring que um “gangster” fosse morto com uma cana de pesca. Era mais original do que com uma pistola e mais estranho, sobretudo... Gostei muitíssimo de trabalhar com Jane Greer, que era uma actriz maravilhosa, muito subestimada. A sua personagem é original, em comparação com as “vamps” da época, e adoro as cenas de amor que ela tem com Mitchum. São muito comoventes.”
Amor, sexo, morte. Um dos temas de eleição, se não mesmo o tema preferido de Jacques Tourneur, ou o tema recorrente na sua obra, é a sexualidade, a sexualidade ligada ao amor e à morte. Pulsões vitais e pulsões fatais. O que já vem de “Cat People” que fala de uma mulher que teme a sua própria sexualidade, essa “pantera que tem dentro de si”. Fecha-se no seu quarto para se afastar do marido, e a única vez que se deixa arrastar pela sua libido (cena de amor com o psiquiatra, que a beija), o médico acaba assassinado. Por alguma razão ela liberta a pantera do jardim zoológico, acabando atropelada quando em liberdade. A simbologia não pode ser mais evidente, ainda que seja bastante subtil a forma como se expressa no filme. Apenas pela sugestão.


O ARREPENDIDO
Título original: Out of the Past
Realização: Jacques Tourneur (EUA, 1947); Argumento: Daniel Mainwaring, Frank Fenton, James M. Cain, segundo romance de Daniel Mainwaring ("Build My Gallows High"); Produção: Warren Duff, Robert Sparks; Música: Roy Webb; Fotografia (p/b): Nicholas Musuraca; Montagem: Samuel E. Beetley; Direcção artística: Albert S. D'Agostino, Jack Okey; Decoração: Darrell Silvera; Guarda-roupa: Edward Stevenson; Maquilhagem: Gordon Bau; Direcção de produção: James H. Anderson; Assistentes de realização: Harry Mancke, Earl Harper, Lynn Shores; Som: Clem Portman, Francis M. Sarver; Efeitos especiais: Russell A. Cully; Efeitos visuais: Linwood G. Dunn; Companhia de produção: RKO Radio Pictures; Intérpretes: Robert Mitchum (Jeff Bailey), Jane Greer (Kathie Moffat), Kirk Douglas (Whit Sterling), Rhonda Fleming (Meta Carson), Richard Webb (Jim), Steve Brodie (Jack Fisher), Virginia Huston (Ann Miller), Paul Valentine, Dickie Moore, Ken Niles, etc. Duração: 97 minutos; Distribuição em Portugal (cinema): Rádio Filmes; Distribuição em Portugal (DVD): Costa do Castelo Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal (Terraço do Capitólio): 20 de Julho de 1951.

ROBERT MITCHUM (1917 – 1997)
Robert Charles Durman Mitchum nasceu a 6 de Agosto de 1917, em Bridgeport, Connecticut, EUA, e faleceu a 1 de Julho de 1997, de cancro de pulmão e enfisema, em Santa Barbara, Califórnia, EUA. A mãe, Ann Harriet, era imigrante norueguesa, e o pai, James Thomas Mitchum, de origem irlandesa, trabalhou num estaleiro e no caminho-de-ferro, onde faleceu tinha Mitchum dois anos de idade. Irrequieto e indisciplinado, foi expulso de alguns estabelecimentos de ensino, o que levou a mãe a transferi-lo para os avós, em Felton, onde continuou a sua saga. Em 1930, foi morar com sua irmã mais velha, em Nova York. Viajou por todo o país, em vagões de comboio, tendo desempenhado várias tarefas, chegando a ser pugilista profissional. Em Savannah, Geórgia, foi preso por vadiagem. Fugiu, voltou para a família, em Delaware, onde conheceu a adolescente Dorothy Spence, com quem viria a casar (e com quem se manteve até à sua morte). Voltou para a estrada. Mas em 1936, a irmã Julie convence-o a participar na companhia de teatro local. Aparece como actor e dramaturgo. Em 1940, casa-se, nasce o primeiro filho, e Robert arranja um emprego estável, como operador de máquinas. Depois de um acidente em que quase ficou cego, dedica-se inteiramente ao cinema, como figurante e actor em pequenos papéis de filmes de serie B, sobretudo westerns protagonizados por Hopalong Cassidy. Entre 1942 e 1943 entra em dezenas de obras e a sua carreira não pára, com prestações cada vez mais significativas. Foi definitivamente, entre os anos 40 e 60, um dos maiores actores do cinema americano, com uma característica muito própria, interpretando personagens do filme negro, do policial, do western ou de filmes de guerra, com uma aparente indiferença que cativava e surpreendia.  Em 1992, foi-lhe atribuído o Cecil B. DeMille Award, pela sua contribuição para a arte cinematográfica. Em 1946, foi nomeado para o Oscar de Melhor Actor Secundário pela actuação em “Também Somos Seres Humanos”. Em 1984, recebeu uma estrela no “Walk of Fame”, que ficou situada no 6240, Hollywood Blvd.
Filmografia: 1942: The Magic of Make-Up (documentário), Saboteur (Sabotagem), de Alfred Hitchcock; Principais filmes: 1944: Thirty Seconds over Tokyo (Trinta Segundos Sobre Tóquio), de Mervyn LeRoy; 1945: The Story of G.I. Joe (Também Somos Seres Humanos), de William A. Wellman;

1946: Till the End of Time (O Direito à Vida), de Edward Dmytryk; 1946: Undercurrent (Estranha Revelação), de Vincente Minnelli; 1947: Pursued (Núpcias Trágicas), de Raoul Walsh; 1947: Crossfire (Encruzilhada), de Edward Dmytryk; 1947: Desire Me (A Mulher do Outro), de George Cukor; 1947: Out of the Past (O Arrependido), de Jacques Tourneur; 1948: Blood on the Moon (Céu Vermelho), de Robert Wise; 1949: The Red Pony (O Potro Vermelho), de Louis MIlestone; 1949: The Big Steal (O Grande Assalto), de Donald Siegel; 1952: Macao (Macau), de Josef von Sternberg; 1952: One Minute to Zero (Missão na Coreia), de Tay Garnett; 1952: The Lusty Men (Idílio Selvagem), de Nicholas Ray; 1952: Angel Face (Vidas Inquietas), de Otto Prerminger; 1953: White Witch Doctor (A Feiticeira Branca), de Henry Hathaway; 1953: Second Chance (Cruel Perseguição), de Rudolph Maté; 1954: River of No Return (Rio sem Regresso), de Otto Preminger; 1955: The Night of the Hunter (A Sombra do Caçador), de Charles Laughton; 1955: Man with the Gun (Sozinho Contra a Cidade), de Richard Wilson; 1957: Heaven Knows, Mr. Allison (O Espírito e a Carne), de John Huston; 1959: The Angry Hills (As Colinas da Ira), de Robert Aldrich; 1959: The Wonderful Country (Quem Ventos Semeia), de Robert Parrish; 1960: Home from the Hill (A Casa da Colina), de Vincente Minnelli; 1962: The Longest Day (O Dia Mais Longo), de Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki; 1962: Two for the Seesaw (Baloiço para Dois), de Robert Wise; 1963: The List of Adrian Messenger (As Cinco Caras do Assassino), de John Huston; 1966: El Dorado (El Dorado), de Howard Hawks; 1968: 5 Card Stud (O Preço de Cinco Jogadores), de Henry Hathaway; 1968: Secret Ceremony (Cerimónia Secreta), de Joseph Losey; 1970: Ryan's Daughter (A Filha de Ryan), de David Lean; 1973: The Friends of Eddie Coyle (Selva Humana), de Peter Yates; 1975: The Yakuza (Yakuza) - de Sydney Pollack; 1975: Farewell, My Lovely (O Último dos Duros), de Dick Richards; 1976: The Last Tycoon (O Grande Magnate), de Elia Kazan; 1984: Maria's Lovers (Os Amantes de Maria), de Andrei Konchalovsky; 1991: Cape Fear (O Cabo do Medo), de Martin Scorsese; 1997: James Dean: Race with Destiny (TV), seu último trabalho. 

O VALE ERA VERDE


O VALE ERA VERDE (1941)

O início dos anos 40 do século XX foram fabulosos para John Ford. Senão atente-se nesta progressão: 1940: “Vinhas da Ira” e “The Long Voyage Home”; 1941: “A Estrada do Tabaco” e “O Vale era Verde”. Um conjunto de filmes abertamente sociais, onde se afloram os problemas do trabalho, a sair de uma época negra na sociedade norte-americana, precisamente os anos da Grande Depressão.
John Ford, que se dizia ser um “fazedor de westerns” e que era considerado por alguns, com razão, um conservador, e sem razão, um reacionário, mostra nesta sucessão de quatro títulos a sua concepção humanista da sociedade e mostra igualmente que a complexidade da sua análise e do seu olhar ultrapassava em muito as etiquetas com que por vezes se procura arrumar com certas personalidades. Revendo agora “O Vale era Verde”, até a designação de clássico, que quase toda a gente lhe cola, e eu também, pode parecer redutora. O filme é um modelo de classicismo, sim, mas tem muito de arrojado e de novo nesses anos do dealbar da década de 40.
Philip Dunne foi durante muitos anos o argumentista preferido de Ford. Foi ele que adaptou o romance de Richard Llewellyn ao cinema, com uma inspiração rara. A história podia redundar numa lamechice insuportável, mas o rigor da escrita de Dunne, e a forma como Ford a coloca em imagens transformam-na numa epopeia humana de profundo significado e projecção universal, apesar de nos encontramos no País de Gales, numa pequena comunidade mineira. 


Huw (Roddy McDowall), o protagonista, é uma personagem que nós não vemos no seu corpo de adulto, apesar de ser pela sua voz que se inicia o relato. Apenas se veem as mãos, embalando os seus pertences no xaile que a sua mãe levava ao mercado: “Vou-me embora do meu vale. Para não mais voltar. Deixo para trás as memórias de 50 anos. A memória.” Assim se inicia um longo flashback que recorda a juventude de Huw Morgan nesse vale que era verde e que os tempos e os homens foram tornando negro, como o pó que se desprende das minas que alimentam e amortalham quantos delas vivem.
Esta é, pois, a história da família Morgan ao longo de vários anos. As primeiras recordações de Huw são de felicidade, subindo a colina verdejante de mão dada com o pai, numa altura em que a harmonia social parecia evidente, ou apenas o era na memória inocente de Huw. Depois, à medida que vai crescendo, os anos passando, os problemas agigantam-se para quem vive da mina, e que são todos, directa ou indirectamente. Com a Grande Depressão, a crise instala-se, os patrões dispensam empregados, reduzem-se salários, membros da família partem à procura de trabalho noutras regiões, instalam-se os conflitos sociais, decretam-se greves, formam-se os sindicatos, passam-se meses e meses sem trabalho, sem salário, a fome agudiza-se. As recordações de Huw deixaram de ser felizes
Os Morgan são pai e mãe, quatro e uma filha, entre eles o mais novo, Huw. Os episódios que vive esta família são de todo o tipo e alternam entre o prazer da vida comum e a tragédia que por vezes bate à porta da comunidade. O pai Morgan (Donald Crisp) é um velho representante da velha ordem que aceita e cumpre escrupulosamente. Ele não entende a criação dos sindicatos nem aprova as greves, por muito que o pároco local, Mr. Gruffydd (Walter Pidgeon), não se incomode com os mesmos e ache mesmo que só em conjunto, com a força do grupo, se possam defender direitos e lutar contra abusos. Apesar da idade e do nítido ascendente moral que desfruta junto dos demais mineiros, começa a ser olhado de esguelha, e os próprios filhos o contradizem, ainda que sempre respeitosamente. A mãe Morgan (Sara Allgood) procura manter o rebanho reunido e apela à harmonia, tanto mais que outras história se interpõe na família. A filha Angharad (Maureen O'Hara) é pedida em casamento pelo filho do dono das minas, mas ela ama o padre Gruffydd, que também não a olha com desinteresse. Os conflitos sociais e individuais cruzam-se e estabelecem uma teia de inesperados resultados. Estamos obviamente nos domínios do melodrama, mas do melodrama de melhor tradição, conduzido com sobriedade e uma vigorosa elegância própria do olhar e do sentir de Ford. O filme tem imagens de uma arrepiante beleza plástica, quer as ruas da pequena aldeia mineira, quer os interiores das casas e da igreja, quer o dramático interior da mina, e os seus arrastados elevadores que levam e trazem (quando trazem) os mineiros do interior da terra.


Alguns criticaram este filme na época da sua estreia por aparecerem as personagens do Pai Morgan e do padre Gruffydd, o primeiro pela sua negação dos sindicatos e das greves, o segundo pela sua devoção ao sacerdócio, que o leva a abdicar de parte da sua vida. Creio que, em lugar de diminuir o filme, estas personagens agigantam o seu alcance em termos sociais. Não estamos no domínio do que deve ser, mas do que é. O que a escritora do romance e posteriormente argumentista e realizador fazem é mostrar parte da realidade social, com as suas contradições próprias de um tempo e de crise e de mudança. Também o dócil comportamento da filha Angharad poderia ser criticado a olhos de hoje, mas o que vemos é um retrato e uma analise de comportamentos dos anos 30, sobretudo numa pequena comunidade mineira do Pais de Gales. Por isso o trabalho de John Ford nos merece todo o crédito e justifica os maiores encómios, tanto mais que o talento com que esboça este quadro quase épico de uma pequena comunidade mineira é de um verdadeiro artista, seguro no retrato, certeiro nas cores (um precioso preto e branco com a assinatura de Arthur C. Miller), vibrante no ritmo, lírico na sensibilidade, magistral no conjunto. Haverá ainda que sublinhar o trabalho da cenografia, recriando nas montanhas de Santa Mónica, nos EUA, uma comunidade mineira inspirada na de Gilfach Goch, no País de Gales. Também a banda sonora é notavelmente composta por várias canções gaulesas que se integram com propriedade nos momentos determinantes da obra, sobretudo em cenas de grandes conjuntos humanos que serpenteiam, rua acima, em direcção à mina, ou rua abaixo, de regresso às casas.
No ano de 1942, na cerimónia de atribuição dos Oscars relativos ao ano anterior, o vencedor do Melhor Filme do ano e do Melhor Realizador foram “How Green Was My Valley” e John Ford. Nesse ano foram ainda nomeados “Blossoms in the Dust” (Mervyn LeRoy), “Citizen Kane” (Welles), “Here Comes Mr. Jordan” (Alexander Hall), “Hold Back The Dawn” (Mitchell Leisen), “The Little Foxes” (Wyller), “The Maltese Falcon” (Huston), “One Foot in Heaven” (Irving Rapper), “Sergeant York” (Hawks) e “Suspicion” (Hitchcock). Nem “Citizen Kane” nem Orson Welles sairam triunfadores. Claro que a Academia premiou o classicismo, em desfavor da modernidade. Mas sempre, ou quase sempre, foi assim. Apesar de tudo, “O Vale era Verde” continua a ser uma obra-prima.


O VALE ERA VERDE
Título original: How Green Was My Valley
Realização: John Ford (EUA, 1941); Argumento: Philip Dunne, segundo romance de Richard Llewellyn; Produção: Darryl F. Zanuck; Música: Alfred Newman; Fotografia (p/b): Arthur C. Miller; Montagem: James B. Clark; Direcção artística: Richard Day, Nathan Juran; Decoração: Thomas Little; Guarda-roupa: Gwen Wakeling; Maquilhagem: Guy Pearce; Direcção de Produção: Gene Bryant, William Koenig; Assistentes de realização: Gene Bryant, Edward O'Fearna,Wingate Smith; Departamento de arte: Walter Cooper, Ben Wurtzel; Som: Eugene Grossman, Roger Heman Sr.; Efeitos visuais: Chesley Bonestell, W. Percy Day, Fred Sersen; Companhias de produção: Twentieth Century Fox Film Corporation; Intérpretes: Walter Pidgeon (Mr. Gruffydd), Maureen O'Hara (Angharad), Anna Lee (Bronwyn), Donald Crisp (Mr. Morgan), Roddy McDowall (Huw), John Loder (Ianto), Sara Allgood (Mrs. Morgan), Barry Fitzgerald (Cyfartha), Patric Knowles (Ivor), Welsh Singers, Morton Lowry, Arthur Shields, Ann E. Todd, Frederick Worlock, Richard Fraser, Evan S. Evans, James Monks, Rhys Williams, Lionel Pape, Ethel Griffies, Marten Lamont, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal: Fox Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: Cinema Tivoli, 28 de Dezembro de 1942.

WALTER PIDGEON (1987 – 1984)
Walter Davis Pidgeon nasceu no Canadá, a 23 de Setembro de 1897, em Saint John, New Brunswick, e viria a falecer a 25 de setembro de 1984, com 87 anos, em Santa Mónica, Califórnia, EUA. Veio muito novo com a família para os EUA, estudando, na Universidade de New Brunswick, direito e teatro. Durante a I Guerra Mundial alistou-se na 65th Battery, da Royal Canadian Field Artillery. Depois da Guerra mudou-se para Boston, Massachusetts, trabalhou num banco e estudou no New England Conservatory of Music. Já em Nova Iorque fez a sua estreia na Broadway em 1925. Tinha começado a integrar o elenco de alguns filmes ainda mudos, em papéis secundários, mas com o advento do sonoro fez valer a sua voz e surgiu em diversos filmes e musicais, como “The Bride of the Regiment” (1930), “Sweet Kitty Bellairs” (1930), “Viennese Nights” (1930) ou “Kiss Me Again” (1931).
Em 1941, com “How Green Was My Valley” (1941) a sua popularidade atinge o auge, que se irá manter ao longo de duas décadas, em obras como “Mrs. Miniver” (1942), onde foi nomeado para Melhor Actor pela Academia, a sequela “The Miniver Story” (1950). Em 1944 volta a ser nomeado em “Madame Curie”, mas a sua carreira ganha forma em muitos outros sucessos, alguns deles ao lado de Greer Garson, “Mrs. Parkington” (1944), “Julia Misbehaves” (1948), “That Forsyte Woman” (1949), “Scandal at Scourie” (1953) ou “The Red Danube” (1949).

“The Bad and the Beautiful” e “Forbidden Planet” são títulos já da década de 50, altura em que o actor volta à Broadway, em peças como “Take Me Along”, onde é nomeado para o Tony Award. Trabalha igualmente para a televisão, e, durante o machartismo, seu nome aparece envolvido na perseguição aos comunistas em Hollywood, sendo acusado de tentar impedir a realização do filme “O Sal da Terra” (1954). “Advise & Consent” (1962) e “Funny Girl” (1968) são dois dos seus últimos trabalhos maiores no cinema. “Sextette” (1978) foi o seu derradeiro.